terça-feira, 21 de março de 2017

Saída no dia da Poesia (e retorno imediato ao exílio)

I

Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
ni los lentos jardines. Ya no hay una luna
que no sea espejo del pasado,

cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las sienes
que acercaba el amor. Hoy sólo tienes
la fiel memoria y los desiertos días.

Nadie pierde (repites vanamente)
sino lo que no tiene y no ha tenido
nunca, pero no basta ser valiente

para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.

II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
un instante cualquiera es más profundo
y diverso que el mar. La vida es corta

y aunque las horas son tan largas, una
oscura maravilla nos acecha,
la muerte, ese otro mar, esa otra flecha
que nos libra del sol y de la luna

y del amor. La dicha que me diste
y me quitaste debe ser borrada;
lo que era todo tiene que ser nada.

Sólo que me queda el goce de estar triste,
esa vana costumbre que me inclina
al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Monograma



[Para a L. - para sempre, o meu Paraíso]

I

Por ti lamentarei para todo o sempre
- ouves-me? -,
sozinho, no Paraíso.

Irá, como um agulheiro,
desviar as linhas da palma
- o Destino.
Irá, por um momento, ceder 
- o Tempo.


Como não, assim desde que os homens se amam.

Os céus serão o teatro das nossas vísceras,
e fustigará o mundo a inocência
feroz como a negra morte.

II

Lamento o Sol e lamento os anos que chegam
sem nós e canto os outros que partiram
se esta é a verdade.

Os corpos enunciados e os navios que embatiam docemente
as guitarras que tremiam debaixo das águas -
«Acredita em mim», «não»
agora no ar, agora na música.

Dois pequenos bichos, as nossas mãos
que procuravam em segredo trepar uma na outra
o vaso com o gerânio nos portões abertos do jardim
e os pedaços dos mares que vieram juntos
por cima d'alvenaria seca, atrás das cercas
a anémona que pousou no teu braço
e a púrpura fremiu três vezes, três dias
sob a queda de água.

Se estas coisas são verdade eu canto
a trave de madeira e o tapete com quatro lados
na parede, a Górgona de cabelos desprendidos
o gato que nos olhou no negrume.

Criança que segura o olíbano e a cruz cor-do-sangue
a hora em que escurece sobre as rochas alcantiladas
lamento as vestes que toquei e a mim veio o mundo.

III

É assim que falo de ti e de mim

Porque eu amo-te e no amor sei
penetrar como uma lua cheia
de todos os lugares, para o teu pequeno pé na vastidão
dos lençóis
colher o jasmim - e tenho a força
tu adormecida, de soprar e levar-te
por passagens lunares e ocultas e marinhas
arcadas
Árvores hipnotizadas com aranhas que de prata resplandecem

Ouviram de ti as ondas
como acaricias, como beijas,
como dizes murmurando «Que é?» e «eh»
em torno do pescoço a enseada
Sempre nós a luz e a sombra

Sempre tu a pequena estrela e eu a sombria
nau
sempre tu o porto e eu o farol à direita
o húmido cais e o brilho sobre os remos
ali em cima na casa com as vidreiras
as rosas amarradas, a água que refresca
sempre tu a escultura de pedra e sempre eu a sombra
que cresce
a persiana entreaberta tu, o vento que a abre eu
porque eu amo-te e amo-te
Sempre tu a moeda e eu a adoração que lucra

Assim a noite, assim o rugido do vento
assim a gota no ar, assim o silêncio
à volta é o mar o opressor
arco do céu com estrelas
Assim o teu mais leve fôlego

Que eu não tenho mais nada
entre as quatro paredes, o tecto, o chão
chamar por ti e ser derrotado pela minha voz
recender por ti e provocar a ira dos homens
porque o que não é experimentado e o que é estrangeiro
não podem os homens suportar e é cedo, ouves-me?,
É ainda cedo neste mundo amor meu.

Falar de mim e de ti

IV

É cedo ainda neste mundo, ouves-me
Os monstros ainda não foram domesticados, ouves-me
O meu sangue perdido e a afiada, ouves-me
faca
como carneiro que corre pelos céus
e dos astros os ramos fende, ouves-me
Sou eu, ouves-me
Amo-te, ouves-me
Seguro-te e tomo-te e visto-te
No níveo e esponsal vestido de Ofélia, ouves-me
Porque me deixas, onde vais, e quem, ouves-me

Segura a tua mão por cima do dilúvio

As longuíssimas lianas e dos vulcões a lava
virão um dia, ouves-me
para nos sepultar e milhares de anos tardios
farão de nós rochas luminosas, ouves-me
para que sobre eles brilhe a crueldade, ouves-me
dos homens
e em milhares de fragmentos nos arremessem.

Nas águas um a um, ouves-me
os meus amargos seixos conto, ouves-me
e o tempo é uma grande Igreja, ouves-me
onde às vezes as figuras
dos Santos
emanam uma lágrima verdadeira, ouves-me
os sinos abrem no alto, ouves-me
uma passagem profunda para que eu passe
aguardam os anjos com velas e fúnebres
salmos
não vou a lado nenhum, ouves-me
ou nenhum ou os dois juntos, ouves-me

Esta flor da tormenta e, ouves-me
do amor
cortámos de uma vez para sempre
e não pode tornar a florir, ouves-me
num outro campo, numa outra estrela, ouves-me
não existe o solo, não existe o ar
que tocámos, o mesmo, ouves-me

E nenhum jardineiro viveu outra sorte

De tanto Inverno e de tantos ventos do norte, ouves-me
agitar uma flor, só nós, ouves-me
no meio do mar
pela vontade do amor só, ouves-me
levantámos uma ilha inteira, ouves-me
com grutas, promontórios e floridas falésias
ouve, ouve
quem fala para as águas e quem chora - ouves
quem chama pelo outro, quem grita - ouves
Sou eu quem grita e sou eu quem chora, ouves-me
Eu amo-te, eu amo-te, ouves-me

V

De ti tenho falado em tempos antigos
com sábias governantas e rebeldes idosos
de onde te veio a sombra de agrimi
o brilho no rosto das águas trémulas
e porquê, espanto-me, destinado a aproximar-me de ti
eu que não quero amor, mas o vento,
mas o livre e recto galope do mar

E de ti ninguém ouviu falar
de ti não o dictamo não o cogumelo
nos lugares altivos de Creta nada
até ti apenas Deus aceitou guiar a minha mão

Mais pr'aqui, mais pr'ali,atentamente à volta
da face da beira-mar, as abertas, os cabelos
na colina que ondulam à esquerda

O teu corpo imóvel solidão de pinheiro
olhos de orgulho e de diáfano
abismo, na casa com gabinete chinês velho
os rendilhados amarelos e a madeira do cipreste
sozinho esperando onde aparecerás
ali em cima na varanda ou atrás das lajes do pátio
com o cavalo do Santo e o ovo da Ressurreição

Como que saída dum mural destroçado
grande como que te queria a ínfima vida
contendo na vela o retumbante clarão vulcânico

Ninguém tendo visto ou escutado
nada nas abandonadas ruínas das casas
nem o ancião enterrado ao pé das paliçadas do jardim
de ti nem a velha com todas aquelas ervas

De ti só eu, talvez e a música
que expulso do meu interior mas que torna mais forte
por ti o ainda não formado peito dos doze anos
olhando o futuro pela cratera rubra
por ti como um alfinete o odor amargo
que encontra o corpo e perfura a memória
e aqui o solo, e aqui as pombas, e aqui a nossa terra ancestral

VI

Tenho visto muito e a terra através da minha mente parece-me mais bela
mais bela em dourados vapores
a pedra aguçada, mais belos
os lábios azuis dos istmos e os telhados nas ondas
mais belos os raios de sol que atravessas sem pisar
invencível como a deusa da Samotrácia sobre 
as montanhas do mar

É assim que te tenho visto e isso basta-me
e todo o tempo para ser absolvido
no sulco que os teu pés deixam para trás
como um golfinho ingénuo seguindo-te

E a minha alma brincando com o branco e com o azul

Vitória, vitória onde derrotado
antes do amor e com ele
pela passíflora e pela árvore-da-seda
vai, vai, mesmo que eu esteja perdido

Sozinho, ainda que esse Sol que seguras seja uma criança
agora nascida
sozinho, e deixa-me ser eu a pátria que lamenta
e possa a palavra enviada segurar para ti uma folha de louro
sozinho, o vento forte e sozinho o redondo
seixo no brilho do fundo negro do mar
o pescador que ergueu e atirou outra vez para trás dos tempos
O Paraíso!

VII

No Paraíso tenho marcado uma ilha
semelhante a ti e uma casa à beira-mar

Com uma grande cama e uma porta pequena
atirei para esse abismo sem fundo um eco
para me ver em cada manhã que acordo

Para ver metade de ti passar nas águas
e outra metade que me faz chorar no Paraíso...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Eneida

És tu quem me permite ter lugar nos banquetes dos deuses, e me fazes senhor das nuvens e das tempestades.