segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Monograma



[Para a L. - para sempre, o meu Paraíso]

I

Por ti lamentarei para todo o sempre
- ouves-me? -,
sozinho, no Paraíso.

Irá, como um agulheiro,
desviar as linhas da palma
- o Destino.
Irá, por um momento, ceder 
- o Tempo.


Como não, assim desde que os homens se amam.

Os céus serão o teatro das nossas vísceras,
e fustigará o mundo a inocência
feroz como a negra morte.

II

Lamento o Sol e lamento os anos que chegam
sem nós e canto os outros que partiram
se esta é a verdade.

Os corpos enunciados e os navios que embatiam docemente
as guitarras que tremiam debaixo das águas -
«Acredita em mim», «não»
agora no ar, agora na música.

Dois pequenos bichos, as nossas mãos
que procuravam em segredo trepar uma na outra
o vaso com o gerânio nos portões abertos do jardim
e os pedaços dos mares que vieram juntos
por cima d'alvenaria seca, atrás das cercas
a anémona que pousou no teu braço
e a púrpura fremiu três vezes, três dias
sob a queda de água.

Se estas coisas são verdade eu canto
a trave de madeira e o tapete com quatro lados
na parede, a Górgona de cabelos desprendidos
o gato que nos olhou no negrume.

Criança que segura o olíbano e a cruz cor-do-sangue
a hora em que escurece sobre as rochas alcantiladas
lamento as vestes que toquei e a mim veio o mundo.

III

É assim que falo de ti e de mim

Porque eu amo-te e no amor sei
penetrar como uma lua cheia
de todos os lugares, para o teu pequeno pé na vastidão
dos lençóis
colher o jasmim - e tenho a força
tu adormecida, de soprar e levar-te
por passagens lunares e ocultas e marinhas
arcadas
Árvores hipnotizadas com aranhas que de prata resplandecem

Ouviram de ti as ondas
como acaricias, como beijas,
como dizes murmurando «Que é?» e «eh»
em torno do pescoço a enseada
Sempre nós a luz e a sombra

Sempre tu a pequena estrela e eu a sombria
nau
sempre tu o porto e eu o farol à direita
o húmido cais e o brilho sobre os remos
ali em cima na casa com as vidreiras
as rosas amarradas, a água que refresca
sempre tu a escultura de pedra e sempre eu a sombra
que cresce
a persiana entreaberta tu, o vento que a abre eu
porque eu amo-te e amo-te
Sempre tu a moeda e eu a adoração que lucra

Assim a noite, assim o rugido do vento
assim a gota no ar, assim o silêncio
à volta é o mar o opressor
arco do céu com estrelas
Assim o teu mais leve fôlego

Que eu não tenho mais nada
entre as quatro paredes, o tecto, o chão
chamar por ti e ser derrotado pela minha voz
recender por ti e provocar a ira dos homens
porque o que não é experimentado e o que é estrangeiro
não podem os homens suportar e é cedo, ouves-me?,
É ainda cedo neste mundo amor meu.

Falar de mim e de ti

IV

É cedo ainda neste mundo, ouves-me
Os monstros ainda não foram domesticados, ouves-me
O meu sangue perdido e a afiada, ouves-me
faca
como carneiro que corre pelos céus
e dos astros os ramos fende, ouves-me
Sou eu, ouves-me
Amo-te, ouves-me
Seguro-te e tomo-te e visto-te
No níveo e esponsal vestido de Ofélia, ouves-me
Porque me deixas, onde vais, e quem, ouves-me

Segura a tua mão por cima do dilúvio

As longuíssimas lianas e dos vulcões a lava
virão um dia, ouves-me
para nos sepultar e milhares de anos tardios
farão de nós rochas luminosas, ouves-me
para que sobre eles brilhe a crueldade, ouves-me
dos homens
e em milhares de fragmentos nos arremessem.

Nas águas um a um, ouves-me
os meus amargos seixos conto, ouves-me
e o tempo é uma grande Igreja, ouves-me
onde às vezes as figuras
dos Santos
emanam uma lágrima verdadeira, ouves-me
os sinos abrem no alto, ouves-me
uma passagem profunda para que eu passe
aguardam os anjos com velas e fúnebres
salmos
não vou a lado nenhum, ouves-me
ou nenhum ou os dois juntos, ouves-me

Esta flor da tormenta e, ouves-me
do amor
cortámos de uma vez para sempre
e não pode tornar a florir, ouves-me
num outro campo, numa outra estrela, ouves-me
não existe o solo, não existe o ar
que tocámos, o mesmo, ouves-me

E nenhum jardineiro viveu outra sorte

De tanto Inverno e de tantos ventos do norte, ouves-me
agitar uma flor, só nós, ouves-me
no meio do mar
pela vontade do amor só, ouves-me
levantámos uma ilha inteira, ouves-me
com grutas, promontórios e floridas falésias
ouve, ouve
quem fala para as águas e quem chora - ouves
quem chama pelo outro, quem grita - ouves
Sou eu quem grita e sou eu quem chora, ouves-me
Eu amo-te, eu amo-te, ouves-me

V

De ti tenho falado em tempos antigos
com sábias governantas e rebeldes idosos
de onde te veio a sombra de agrimi
o brilho no rosto das águas trémulas
e porquê, espanto-me, destinado a aproximar-me de ti
eu que não quero amor, mas o vento,
mas o livre e recto galope do mar

E de ti ninguém ouviu falar
de ti não o dictamo não o cogumelo
nos lugares altivos de Creta nada
até ti apenas Deus aceitou guiar a minha mão

Mais pr'aqui, mais pr'ali,atentamente à volta
da face da beira-mar, as abertas, os cabelos
na colina que ondulam à esquerda

O teu corpo imóvel solidão de pinheiro
olhos de orgulho e de diáfano
abismo, na casa com gabinete chinês velho
os rendilhados amarelos e a madeira do cipreste
sozinho esperando onde aparecerás
ali em cima na varanda ou atrás das lajes do pátio
com o cavalo do Santo e o ovo da Ressurreição

Como que saída dum mural destroçado
grande como que te queria a ínfima vida
contendo na vela o retumbante clarão vulcânico

Ninguém tendo visto ou escutado
nada nas abandonadas ruínas das casas
nem o ancião enterrado ao pé das paliçadas do jardim
de ti nem a velha com todas aquelas ervas

De ti só eu, talvez e a música
que expulso do meu interior mas que torna mais forte
por ti o ainda não formado peito dos doze anos
olhando o futuro pela cratera rubra
por ti como um alfinete o odor amargo
que encontra o corpo e perfura a memória
e aqui o solo, e aqui as pombas, e aqui a nossa terra ancestral

VI

Tenho visto muito e a terra através da minha mente parece-me mais bela
mais bela em dourados vapores
a pedra aguçada, mais belos
os lábios azuis dos istmos e os telhados nas ondas
mais belos os raios de sol que atravessas sem pisar
invencível como a deusa da Samotrácia sobre 
as montanhas do mar

É assim que te tenho visto e isso basta-me
e todo o tempo para ser absolvido
no sulco que os teu pés deixam para trás
como um golfinho ingénuo seguindo-te

E a minha alma brincando com o branco e com o azul

Vitória, vitória onde derrotado
antes do amor e com ele
pela passíflora e pela árvore-da-seda
vai, vai, mesmo que eu esteja perdido

Sozinho, ainda que esse Sol que seguras seja uma criança
agora nascida
sozinho, e deixa-me ser eu a pátria que lamenta
e possa a palavra enviada segurar para ti uma folha de louro
sozinho, o vento forte e sozinho o redondo
seixo no brilho do fundo negro do mar
o pescador que ergueu e atirou outra vez para trás dos tempos
O Paraíso!

VII

No Paraíso tenho marcado uma ilha
semelhante a ti e uma casa à beira-mar

Com uma grande cama e uma porta pequena
atirei para esse abismo sem fundo um eco
para me ver em cada manhã que acordo

Para ver metade de ti passar nas águas
e outra metade que me faz chorar no Paraíso...

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