segunda-feira, 17 de julho de 2017

Summertime

Agora, com licença, que vou ali ver uma pirralha que mais parece uma boneca animada - os genes maternos mergulharam nas fontes de Castália, é a minha tese - e me deixa, inexplicavelmente, numa felicidade que não pertence a este mundo. Pelo menos, até crescer e se dedicar à prostituição nos quarteirões turcos de Viena. Quem sai aos seus, exacto.

Regressamos à nossa erudita actividade daqui a precisamente dois meses, data do meu trigésimo segundo aniversário, momento sempre de pompa, exuberância, agitação e contentamento dos povos e dos deuses que governam os destinos da terra.

(Confesso que estou surpreendido com a quantidade de leitores que as estatísticas indicam, particularmente o número dos que chegam as mensagens mais longas e ensaísticas - fracas e chatas - assim como às primeiras e breves lições de grego postadas nos arquivos. Fico contente por ver que se continua a ler muito aqui a tradução do Monograma, e com esperança de que ela os leve a outros poemas, a outros autores gregos contemporâneos. Há muita coisa lá que vale a pena ler. Também na Hungria, na Roménia e na Sérvia se encontra ainda literatura digna do nome. Bom, na verdade, mantenho isto para 3 ou 4 pessoas, dependendo da minha mãe vir cá ou não, malditos telemóveis. E é para essas que continuarei a manter. Ao resto, agradeço)

Coisas engraçadas

Leio os meus diários passados meia dúzia de anos e pergunto-me como foi possível perder tempo com tais parvoíces, com as coisas de que tomei nota... tempos em que vivia com uma advogada... algo que me estaria vedado, isso de viver com alguém... é complicado estar agora aqui a descrever a situação... mas a verdade é que nessa altura já uma certa insensibilidade me dominava, desde muito cedo, tão notada e apreciada nos labirintos que frequentava antes de a encontrar... fizeram-me chegar um livrito, há uns meses, em que ela é autora... a publicação da tese de Mestrado, meandros do Direito, direitos das sociedades, enfim, não tenciono ler. Porém, peguei hoje no livro, apenas para lhe ouvir o nome, sorrir um pouco ao imaginar a criatura a redigir o texto, num português péssimo (na verdade, eu li... eu bem lhe dizia que ela devia aprender Latim, como era costume, o português dá logo um salto, logo!... e é fácil, aquilo depois de se aprender as declinações e as formas verbais é sempre a andar, não é como no grego do antigamente, foda-se, um gajo primeiro que perceba o que um Píndaro ou um Ésquilo estão para ali a dizer, está bem, está, nem os gregos percebem, e é por isso que é tão engraçado,  é mais ou menos como a Topologia moderna, uma coisa que dá pica... e cagança... lembro-me de uma ocasião conversarmos acerca da Antígona, mas não me disse mais do que aquelas imbecilidades que se aprendem nas faculdades de Direito... era uma pena tamanho desperdício, ela era verdadeiramente brilhante, mas estes textos ocupam uma outra dimensão,  daí terem resistido 2500 anos, não é por acaso, eu bem vos digo, em vez de rebentarem dinheiro em psicoveterinários e outros xamãs desses, leiam os textos fundadores, devagar, com calma, com cuidado, está lá tudo, como se diz, e está, esqueçam lá as grandes listas de romances, de tomos filosóficos, científicos blá, blá, blá, não se encontra nada de novo desde Aristóteles, até deficientes como paneleiros e proto-socialistas já lá havia, veja-se bem o avanço e o progresso daquela malta), não a censuro, são coisas científicas, claro, sim, obviamente, ciência, pois. Tinha-lhe dito que ela é que era a intelectual, a inteligência, o espírito mais elevado. É necessário, obviamente, que tais espíritos acabem por odiar naturezas como a minha, extraordinariamente indiferentes e até maldosas - no plural, não estou sozinho, um dia talvez falemos disso com mais cuidado, é o que digo sempre, mas há que ter certezas, certezas sólidas de que depois disso não me demorarei muito por cá, é isso que é necessário. Se esse ódio não lhes brota de forma espontânea, a única coisa que resta é criá-lo nós mesmos, se ainda nos restar um pouco de dignidade. Não se imagina as coisas que me ensinaram. Bom. São coisas que acontecem, nada de especial. O único lamento será o de ela nunca ter saído daquele meio sabujo em que se movimentava. Enfim, mais vinte ou trinta anos e ninguém se lembrará disso, quando estiverem todos mortos e no lugar deles estarão outros, iguaizinhos, sem tirar nem pôr, a manobrar, a negociar, a apodrecer a mentir ainda mais e mais e mais, sempre satisfeitos, orgulhosos, mesquinhos. Não deixará nada. É pena. Porém, a recordação da sua bondade, da sua graça natural, essa é profunda. Se a tivesse conhecido um pouco mais cedo, teria sido diferente. Às vezes, é demasiado tarde para triunfar sobre as tentações do abismo, para calar aquele apelo obscuro do perigo, da morte, da perda. Este mundo é uma indignidade, só isso, não é o tempo de justificar. Nunca o será, bem vistas as coisas. Não vale a pena. É preciso ter visto certas coisas, lá longe, para se compreender, tê-los visto em acção, para se perceber com toda a clareza de que se alimentam estes parasitas, em que caudais irresistíveis de merda vão buscar forças, razões, moralidade. De outro modo não é possível compreender.

Enquanto isso, tomemos refúgio nas coisas belas. São elas que salvam o mundo, como dizia aquele grande psicólogo russo.

E ela é mesmo muito inteligente. Sem ironia. Comprova-se que eu nunca me engano. Ensinaram-me bem, muito bem. Eu é que sempre me portei muito mal. Verdadeira ignomínia. O melhor é nem falar disso. Há vergonhas e infâmias que hei-de transportar comigo até ao e para as quais não há perdão nem redenção possível. Tentei diante do espelho, e do altar, todas as desculpas possíveis, as circunstâncias, a doença, a necessidade, a impotência face a acontecimentos que me ultrapassavam, as obrigações, tudo que justificasse o meu comportamento para com alguém que me dedicava tanto amor, que tinha uma esperança tão grande. O sofrimento por que passou não tem perdão possível.

Tem um livro e isso deixa-me satisfeito. Deus esteja com ela. E convosco. Agora e sempre.

A voz mais bela do Mediterrâneo

«Γιά σέναν εγεννήθηκε στον κόσμο το κορμί μου»

Um lugar onde nunca estive

domingo, 16 de julho de 2017

Não sei como, mas a verdade é que aprendi a retirar algum prazer destes dias de dor constante, monótona, quase familiar. O meu jogo favorito passou a ser o medir das horas entre analgésicos. Tem a sua graça. 

Há, apesar de tudo, algumas vantagens na imobilidade e na letargia. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

«Mas também um espinho doloroso»

Flores orientais

Da escumalha

Em qualquer período de transição emerge esta escumalha, existente em qualquer sociedade, que não só não tem qualquer objectivo como também não dá qualquer sinal de pensamento, exprimindo apenas, com toda a pujança, a inquietação e a impaciência. Entretanto, esta escumalha, sem o saber, quase sempre cai sob as ordens do pequeno grupo dos «homens de vanguarda» que age com um fim determinado e manipula todo esse lixo onde e como lhe aprouver, quando não se dá o caso de o próprio grupo «de vanguarda» ser composto por idiotas absolutos, o que, de resto, também acontece às vezes. Entre nós, agora que já passou todo, diz-se que Pior Stepánovitch foi comandado pela Internacional, que Iúlia Mikháilovna foi comandada por Pior Stepánovitch, e que esta, por sua vezes, de acordo com as ordens dele, regulava todo o género de escumalha. As mais sérias da nossas cabeças admiram-se agora consigo mesmas: como foi que puderam dar semelhante patada naqueles dias? É que não sei - e ninguém o sabe, acho eu - em que consistiam os nossos tempos de revolta e que transição queríamos ter, a não ser que o saibam alguns visitantes de fora. Entretanto, a gentalha sem préstimo obteve de chofre a superioridade, começou a criticar em voz alta tudo o que era sagrada, quando dantes não se atrevia sequer a abrir a boca; ao passo que as pessoas importantes, que até então mantinham tranquilamente a preponderância, começaram a dar ouvidos à gentalha e a não ripostar; havia mesmo entre elas quem os apoiasse com risinhos.

Doistoiévski, Demónios

sábado, 1 de julho de 2017

Com um toque de flamenco

Ideias


For us, too, there was a wish to possess 
Something beyond the world we knew, beyond ourselves, 
Beyond our power to imagine, something nevertheless 
In which we might see ourselves...

Ítaca


Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Manias

Não é para estar com merdas, mas isto de reputarem como grande obra um livrito onde um Imperador romano fala como um filósofo francês de 1950 no divã do psicanalista (ou seja, uma porqueira urbana) faz-me um bocado de confusão.

Mas de Literatura percebo pouco. Agora tenho de ir ali e já venho.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

The hands of love


Robert John Bardo is an American from Tucson, Arizona. In 1986 he became obsessed with actress Rebecca Schaeffer after sending her a letter. In 1989, Bardo witnessed her in a love scene in the 1989 film Scenes from the Class Struggle in Beverly Hills; he later stated "Even though nothing really happened in the movie too dirty that involved her, it still bothered me, and it just ruined this innocent image of her." He paid a private investigator to find out her home address and began to stalk her. On 18 July 1989 he travelled to Shaeffer's home and murdered her.

Dr. Park Elliott Dietz, a psychiatrist who had worked on the case of John Hinckley, Jr. following his assassination attempt on President Ronald Reagan, was assigned to work with Bardo. He told that court that Bardo claimed "Exit" had influenced his actions. According to the Associated Press, when the song was played in court "Bardo, who had sat motionless through the trial, sprang to life... He grinned, bobbed to the music, pounded his knee like a drum and mouthed the lyrics." Bardo was convicted of first-degree murder.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A excitação



My first orgasm, within the deep wound on her thigh, jolted my semen along this channel, irrigating its corrugated ditch. Holding the semen in her hand, she wiped it against the silver controls of the clutch treadle. My mouth was fastened on the scar below her left breast, exploring its sickle-shaped trough. Gabrielle turned in her seat, revolving her body around me, so that I could explore the wounds of her right hip. For the first time I felt no trace of pity for this crippled woman, but celebrated with her the excitements of these abstract vents let into her body by sections of her own automobile. During the next few days my orgasms took place within the scars below her breast and within her left armpit, in the wounds on her neck and shoulder, in these sexual apertures formed by fragmenting windshield louvres and dashboard dials, in a high-speed impact, marrying through my own penis the car in which I had crashed and the car in which Gabrielle had met her near-death. I dreamed of other accidents that might enlarge this repertory of orifices, relating them to more elements of the automobile's engineering, to the ever-more complex technologies of the future. What wounds would create the sexual possibilities of the invisible technologies of thermonuclear reaction chambers, white-tiled control rooms, the mysterious scenarios of computer circuitry? As I embraced Gabrielle I visualized, as Vaughan had taught me, the accidents that might involve the famous and beautiful, the wounds upon which erotic fantasies might be erected, the extraordinary sexual acts celebrating the possibilities of unimagined technologies. In these fantasies I was able at last to visualize those deaths and injuries I had always feared. I visualized my wife injured in a high-impact collision, her mouth and face destroyed, and a new and exciting orifice opened in her perineum by the splintering steering column, neither vagina nor rectum, an orifice we could dress with all our deepest affections. I visualized the injuries of film actresses and television personalities, whose bodies would flower into dozens of auxiliary orifices, points of sexual conjunction with their audiences formed by the swerving technology of the automobile. I visualized the body of my own mother, at various stages of her life, injured in a succession of accidents, fitted with orifices of ever greater abstraction and ingenuity, so that my incest with her might become more and more cerebral, allowing me at last to come to terms with her embraces and postures. I visualized the fantasies of contented paedophiliacs, hiring the deformed bodies of children injured in crashes, assuaging and irrigating their wounds with their own scarred genital organs, of elderly pederasts easing their tongues into the simulated anuses of colostomized juveniles.

James Ballard, Crash

domingo, 18 de junho de 2017

Mais um bocadinho, e já se cansam de fingir que os mortos os deixam muito tristes.

Só mais um bocadinho. 

sábado, 17 de junho de 2017

Ir à missa



De tudo o que permaneceu e de todas as mudanças políticas, sociais e económicas que moldaram e transformaram o Império, a emergência do Cristianismo como religião universal constitui uma das mais significativas alterações na paisagem do Império. Uma religião que não só desafiava a natureza e os limites do poder imperial[1], como o próprio conceito tradicional de romano se foi diluindo, em particular no Oriente, na nova concepção de homem cristão[2]. Lenta e progressivamente, a Oriente e a Ocidente, os arquétipos da cultura clássica foram sendo substituídos: a leitura de Virgílio [3]e de Horácio deu lugar à da Bíblia[4], a historiografia à hagiografia, à liturgia, ao sermão[5], e os valores da política passam a decorrer da doutrina teológica[6]. Em finais do séc. IV, na Numídia, um movimento de trabalhadores sazonais, de escravos e colonos, surge, não tanto como movimento social, mas como uma corrente religiosa[7]com origem no cisma donatista, que persegue com mais entusiasmo os Católicos do que os ricos que os exploravam[8]. Em 412, Honório, depois dum conlatio entre Católicos e Donatistas onde os argumentos resvalam para o insulto[9], dá início à repressão do donatismo. No plano das ideias a velha identidade romana começa a ser questionada. Santo Agostinho, um neoplatonista[10], redige A Cidade de Deus nos princípios do séc. V, onde se pode ler que, segundo a definição de  Cipião ou de Cícero, de acordo com os seus conceitos de Justiça, de Direito[11] e de Estado, a República nunca existiu[12]. Por meio do Cristianismo, aquilo que tinha servido para inspirar Cícero, era agora usado para atacar as fundações do espírito romano. Sociedade, Imperador, Cultura – tudo é tocado pelo cristianismo.
Contudo, isso não significa que as estruturas políticas e mentais do Império viessem a ser absorvidas ou totalmente eliminadas quer pela Igreja[13], quer pelos hereges bárbaros. Pelo contrário, todos os reinos bárbaros – assim como a Igreja - que sucederam ao Império procuraram imitá-lo nos seus traços fundamentais[14]. Os Vândalos combatiam, administravam, cobravam impostos e perseguiam os hereges no mais fiel estilo romano[15]; as suas elites enriqueciam e gastavam como os romanos, em casas de luxo e em igrejas[16]. Os Francos diziam-se descendentes dos heróis troianos[17], respeitavam as tradições romanas[18] e os seus líderes desejavam para si uma posição dominante à imagem daquela da aristocracia romana[19]. O reino dos Godos era uma imitação da Romania[20]. «Admiramos mais os títulos conferidos pelos imperadores que os nossos», escreve um rei bárbaro a um Imperador[21]. Odoacro, um Scírio que serviu no exército romano, podia ser uma personagem do Império[22].  Só que os bárbaros eram, de facto, uma outra gente. Em África, as elites dos Vândalos governavam a província como uma propriedade de grandes chefes militares [23], substituindo e expropriando a classe senatorial das suas funções e terras. A carne passa a fazer parte da dieta da alta aristocracia dos Francos como sinal distintivo de classe, as suas vestes procuram imitar as dos generais romanos, não as togas dos seus senadores[24]. Gente de índole marcadamente bélica, os bárbaros exploram os povos dominados[25], destruindo vidas humanas, monumentos e equipamento económico[26]. O fim da infra-estrutura do Império Tardio no Mediterrâneo e o controlo Vândalo dos canais de abastecimento de cereais do território romano, conduziu ao desaparecimento da aristocracia (e duma grande parte da população) em Roma[27], à quebra do poder central, a uma crescente provincialização[28] do Império, à regressão da técnica, do gosto, da administração e da majestade de governo[29]. Também o mundo, agora, era outro.
Ainda assim, as linhas de continuidade entre os modelos de autoridade do Império e os dos reinos bárbaros[30] são evidentes. Apesar de todos os paradoxos, fraquezas e contradições internas com laivos esquizofrenia, de todas as pressões e ameaças do exterior,  a verdade é que o Império durou. Roma durou.
Os historiadores sabem que o Império Romano sobreviveu adaptando-se às circunstâncias e no séc. III, dois homens terão um papel predominante nesse processo constante de adaptação do Império a circunstâncias que nem sempre pôde controlar: Septimio Severo e Diocleciano. O Império do tempo de Severo é, no essencial, o Império de Augusto[31], onde o aparentemente insolucionável problema da Sucessão se eternizava. A crise do séc. III é uma crise do Imperador e do seu exército[32], exposta e acentuada pela pressão bárbara nas fronteiras do Império. Severo tenta uma monarquia do tipo dinástico, e ao mesmo tempo controlar e quebrar o predomínio da guarda pretoriana[33]. O homem que atrasou a catástrofe em meio século[34]era, sobretudo, um homem pragmático. «Enriqueçam a soldadesca e maribem-se para o resto», consta[35] ter sido um dos últimos conselhos dados por si aos seus filhos. Foi, a seguir a Augusto, o maior reformador do exército romano[36], mas, ao contrário de Augusto, foi um dos maiores opositores ao Senado[37], sendo já este uma instituição quase meramente decorativa e impotente[38], na expressão de Alföldy, «um avô respeitável, mas paralítico»[39]. Diocleciano haveria de reduzir os senadores a nada no que toca à participação na vida da administração e do governo do Império[40] -  o Senado, no séc. III, não passa de uma sombra[41] . O povo romano pouco mais era, desde o século I[42], do que um fantasma entretido em Roma com jogos e corridas, e alimentado por trigo gratuito[43] e carne de porco. Também aqui, na capital do Império, as coisas iriam mudar. Se no tempo de Severo era ainda comum o Imperador passar largas temporadas na Itália Central e em Roma[44], Diocleciano visita a cidade somente uma vez, em 303, para celebrar os seus vinte anos de poder[45]. O mundo romano, desde o século III,  afastou-se de si próprio[46]. A sequência de invasões e usurpações tornou a presença do Imperador em Roma quase impossível[47] e durante o período da Tetrarquia um número considerável de cidades foi considerado de importância estratégica e adornado com edifícios dignos de uma residência do Imperador[48]. Por fim, Constantinopla é fundada, uma «Nova Roma» no Oriente, que, até à sua queda, irá guardar para si o papel de nova capital Imperial[49], e no século IV encontramos o Império governado a partir de uma nova capital, por um Imperador mais cristão do que romano; à morte de Constantino, o Império tinha um novo rosto[50], na organização política, na constituição e disposição do exército, na fé e nos costumes do povo. As invasões dos Bárbaros e o Cristianismo colaboraram na composição duma nova identidade romana. Mas, em si, isso também não constitui uma grande novidade. A sobrevivência do Império não se deveu unicamente à habilidade dos romanos em modificar o seu complexo político. A criação de novas ordens ou magistraturas foi decisiva para durabilidade do Império, como resposta às constantes ameaças que se movimentavam ao longo do Danúbio, do Reno e do Eufrates. Mas, a par de novas contingências políticas e militares, a pouco e pouco também o espírito, digamos assim, do Império foi conhecendo novas faces. Augusto funda o Principado sem deixar de observar, perante o Senado e a aristocracia romana, os sinais de reverência e de respeito pelos representantes tradicionais do poder da República[51], mas era claro, e aceite, que o poder estava agora nas mãos de um só homem[52]. Os romanos resistiram por muito tempo a uma monarquia dinástica do estilo helenístico, resistiram a Nero, a Calígula, a Domiciano, até, de algum modo, à dinastia dos Severos; mas, após a morte de Constantino, os seu três filhos dividiram entre si o Império. Teodósio Augusto,o último imperador a dominar o Ocidente e o Oriente, luta mais com a oração do que com as armas, após a vitória sobre um poderosíssimo exército, derruba as estátuas de Júpiter e distribui os seus raios de oiro pelos correios[53]. Naturalmente, Deus tira a vida àqueles que procuram a felicidade do poder e não a vida eterna[54]. O Cristianismo, a Igreja, não se limitará a oferecer uma nova visão sobre o poder terreno e as esferas celestes e um novo esboço de uma identidade romana; fará das estruturas do Império um instrumento para se afirmar[55], e os bispos e os monges juntam às suas funções religiosas funções políticas[56] e será a Igreja a única alternativa a uma carreira militar após a queda do Império no Ocidente[57] o principal agente de transmissão da cultura romana ao Ocidente Medieval[58]. Àqueles que falam, talvez exageradamente, da «morte do Império», do «homicídio do Império» ou, recentemente, do «suicídio do Império», podemos responder que assim como a República cedeu o lugar ao Principado, e este, com o tempo, se foi transformando numa monarquia, também o carácter romano se foi alternando, e onde encontrávamos Cícero, Suetónio, ou Tácito, vemos agora Agostinho, Ambrósio ou Gregório Magno. 

Bem vistas as coisas, o Império não foi assassinado, nem se suicidou, nem sequer morreu – foi só à missa.

            E esse foi o triunfo final do helenismo sobre Roma.  

Ter sido, ter estado

I understand the large hearts of heroes,
The courage of present times and all times,
How the skipper saw the crowded and rudderless wreck of the steam ship and Death chasing it up down the storm,
How he knuckled tight and gave not back an inch, and was faithful of days and faithful of nights,
And chalk'd in large letters on board, Be of good cheer, we will not desert you;
How he follow'd with them and tack'd with them three days and would not give it up,
How he saved the drifting company at last,
How the lank loose-gown'd women look'd when boated from the side of their prepared graves,
How the silent old-faced infants and the lifted sick, and the sharp-lipp'd unshaved men;
All this I swallow, it tastes good, I like it well, it becomes mine,
I am the man, I suffer'd, I was there.

Walt Whitman, Song of Myself, 33

É como estar em casa


terça-feira, 6 de junho de 2017

Um abraço, António


Só hoje é que soube. Que vergonha. Então um gajo destes, pá, que com a massa toda que sacou, ganhou, digo, em vez de rebentá-la em super-putas de luxo, assume um namoro com a Guta Moura Guedes (foda-se... foda-se... foda-se...), era lá capaz de se meter em corrupções e não sei quê. As coisas que esta malta inventa. (Mas, pelo sim, pelo não, deixa-me cá dizer que isto foi tudo por decisão colegial e tal... e deixa-me cá também, já agora, nomear um banco suíço conhecido por operações um pouco, enfim, poeirentas como entidade imparcial... a gente não nasceu ontem, não é assim?...)

Um abraço, pá. Bom, foi só para eu matar saudades. Já agora, um abraço também ao Pinho, esse grande professor e um verdadeiro amigo dos animais. Pelo menos, ouvi dizer, nunca vi, anda sempre por Times Square a passear a cadela. Ou as cadelas. E são das grandes. Dizem. 

«What a play!»

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quando é 31 no calendário, dá-me para ouvir o meu nome

«Darling, there are no taboos in lust»


Um excelente exemplo do poder da historiografia Senatorial romana


O bom princeps possui certas qualidades: moderatio, modestia, comitas e civilitas[1]- falta neste elenco de Wallace-Hadrill uma outra que Suetónio não deixou escapar ao contar a vida de Vespasiano: uma certa divindade[2]. É, o bom princeps, aquele que se enquadra e que cumpre com os rituais aceites pela tradição política romana: a recusa de cargos, a deferência diante do Senado, a generosidade para com as massas urbanas, a concessão de (alguma) liberdade de expressão e de protesto[3], em suma, é aquele que se comporta com uma aura de majestade, que condescende, tolera e perdoa[4]. É, no fundo, uma cópia viva do modelo do imperador de Augusto[5], que deixou nas Res Gestae um testemunho exemplar de recusa de cargos, de honras e de títulos, e dum magno respeito pela tradição senatorial ao devolver aos senadores os poderes extraordinários que lhe tinham sido conferidos.
            Mas, o princeps era optimus (ou pessimus) para quem?
            A historiografia romana era um género literário praticado por Senadores ou por homens muito próximos do Senado, e, por isso e inevitavelmente, os Imperadores são retratados na História de acordo com a perspectiva e os modelos políticos do pensamento senatorial de cariz essencialmente conservador e republicano[6]. Para Suetónio, o princeps optimus é o que aceita a hierarquia e as tradições da sociedade romana, que mantém a ordem pública e a moral, que transfere ao seu sucessor a velha república dos seus antepassados, purificada e restaurada[7]. É assim Vespasiano: só aceita a toga senatorial depois da insistência da mãe[8], não faz qualquer avanço em direcção ao poder apesar do entusiasmo e anseio dos seus apoiantes[9], que já enquanto censor tinha considerado como assunto mais importante fortalecimento do Estado[10], e que tudo fez para pôr cobro aos excessos da libertinagem e da extravagância que tinham florescido em Roma[11]. Em tudo o mais, diz Suetónio, era desprendido, moderado, chegando até a ostentar a sua prévia condição humilde[12].  E, porque não lhe faltava nenhuma das qualidades do bom princeps, patrocinou o restauro dos templos[13], reintroduziu os antigos espectáculos[14], era robusto [15], afável[16], culto[17] e generoso[18]. Mas, talvez a sua principal qualidade fosse a de ser amigo do Senado, ordem que, juntamente com a dos cavaleiros, reestruturou, admitindo os mais distintos Italianos e provinciais, decidindo ainda que numa discussão entre um senador e um cavaleiro, o segundo não deveria nunca utilizar linguagem ofensiva para com o senador[19], evidenciando-se e distinguindo-se assim o grau de dignidade das duas ordens principais da República romana. Pois, apesar de tudo, era ainda o Senado que concedia legal e formalmente os poderes ao Imperador, e era esperado ainda deste, pelo menos do ponto de vista senatorial, que mantivesse o papel principal do Senado na ficção do principado[20], como Plínio o exprime de forma clara no seu elogio a Trajano: «O que pode haver  de tão senatorial como o nome de Optimus que atribuímos?»[21] O optimus princeps é sinónimo do princeps amigo do Senado[22],  o primeiro dos senadores (embora, na realidade, fosse privatus acima da lei[23]), um amigo poderoso, e não de um rei ou de uma divindade[24].
Até agora falei do príncipe, mas falta-me descrever o monstro[25]. É nestes termos que Suetónio começa a segunda parte da Vida de Calígula, e o que se segue na  já não surpreende ninguém: desejos de realeza[26] e divindade[27], sexo incestuoso[28], adultério[29], crueldade[30], numa imagem de depravação e de inumanidade que resistiu até aos nossos dias. Seria exactamente assim? Calígula comporta-se, em Suetónio, como um exemplo perfeito do pessimus princeps. Não conhece a moderação nem o pudor[31], é um inimigo da paz, infeliz por não viver numa época marcada por uma catástrofe pública[32], desrespeitador das famílias mais antigas[33], um adversário feroz do Senado e dos Cavaleiros[34], um homem que manchava a memória de Augusto[35], da República[36], um Imperador que quer governar como um rei e ser adorado como um deus[37]. E isso era demasiado - demasiado exótico[38], demasiado helenístico.
Temos, portanto, dois retratos antagónicos de dois Imperadores: o bom, Vespasiano, e o terrível, Calígula. Tanto um, como outro, devem ser olhados tendo em conta que estamos perante a perspectiva senatorial, em que os Imperadores são avaliados consoante o seu grau de amizade pelo Senado. Mas falta-nos ainda responder à pergunta: porquê?
De acordo com Handrill-Wallace, duas correntes conceptuais fundadas uma no pensamento Republicano romano, outra na filosofia e na experiência helenística, convergem no tempo do Império para formar algo de novo[39]: uma ideologia imperial oculta debaixo da etiqueta e dos rituais tradicionais da república[40]. Isso explicaria o porquê de Calígula, que desejava reinar às claras, ao estilo dum rei helenístico, ser retratado de uma maneira tão grotesca. Não estou totalmente convencido de que seja essa a principal razão para a distinção que Suetónio faz entre o bom e o mau princeps.
A filosofia grega estava bem viva já no espírito republicano. Como vimos anteriormente, o irmão de Cícero, aquando da candidatura deste a cônsul, chama-lhe seguidor de Platão[41]; Cícero, o Senador por excelência, abrirá o caminho – pelo menos teórico – para o Principado no De Republica, exactamente na mesma linha política dos textos das Leis e do que agora conhecemos como A República de Platão.  Em Suetónio a influência da Ética Aristotélica é evidente no estabelecimento de dicotomias como vício-virtude, justiça-injustiça, moderação-depravação[42]. O mesmo Suetónio que enaltece Vespasiano por ser o primeiro a estabelecer um salário regular para os mestres de retórica latina e grega[43], censura a loucura de Calígula em querer destruir os poemas de Homero. Não será em Suetónio, certamente, que encontraremos uma grande resistência à influência do pensamento grego no espírito romano – até porque lhes imita, de certo modo, os modelos historiográficos[44]. A animosidade do historiador, creio, dirige-se a outro lado.
 A acção política de Augusto, a criação de magistraturas paralelas àquelas que eram as tradicionais na República e de novos cargos que retiraram o prestígio e a utilidade dos antigos, esvaziando o poder dos cônsules e questionando a influência do Senado no desenrolar dos acontecimentos na cidade, foi o ataque decisivo às fundações do regime republicano. A partir de Augusto, o chefe das legiões responde directamente ao Imperador e a balança do poder fica definitivamente inclinada para o lado do Exército. Com Tibério, o Senado conheceu um aumento dos seus poderes, mas sem qualquer influência na escolha do Imperador. É a guerra e a vitória militar que, a partir dali, vão decidir quem será Imperador, apesar da farsa e dos paradoxos do regime – continuará sempre a ser o Senado a conceder os poderes ao novo Imperador imposto pelo exército ou pela guarda pretoriana. E parece-me que é contra este estado de coisas, contra o exército e o seu poder e os seus privilégios que Suetónio – que não era um homem de acção nem um político, mas um scholar[45] - lança o seu veneno.
Os militares romanos eram homens orgulhosos das suas instituições[46], tinham rendimentos fixos muito superiores aos do cidadão comum, aos quais se acrescentava o saque, a pilhagem, e a generosidade do Imperador em dias de Triunfo[47]. Uma coisa seria difícil de encontrar no exército romano: gregos. A maior parte dos legionários vinham da Gália, da Hispânia e dos Balcãs[48]; logo, não seria o anti-helenismo que moveria Suetónio a descrever na Vida de Vespasiano o exército como um bando de indisciplinados[49], insolentes[50], saqueadores[51], e revoltosos[52], incapazes de vencer a mais fácil das batalhas sem o comando do grande general. Mesmo em Roma, a que chegou triunfante no cumprimento duma profecia dos Judeus[53] - o que não foi um grande impedimento na admiração de Suetónio por Vespasiano – uma das primeiras medidas do novo Imperador foi o de castigar o excesso de orgulho dos soldados efeminados, moles e devassos [54] e, com a justificação da necessidade de restaurar a disciplina militar, não partilhar com nenhum os prémios da vitória[55]. O bom princeps é amigo do Senado e hostil ao exército. Não era o caso de Calígula, cujo o próprio nome lembraria, de imediato, estarmos perante um homem do exército[56], nado e criado no meio dos soldados – que lhe dedicavam um grande amor e dedicação[57]. Ninguém poderia representar de forma tão exemplar tudo o que era contrário à perspectiva senatorial de Suetónio. Em Calígula temos um homem que nasceu no meio dos soldados, que foi posto no poder pelo exército, e só o abandonou quando assassinado pelos mesmos que o tinham elevado a Imperador. É um retrato da ausência de poder e de influência do Senado, de uma realidade intolerável para as forças republicanas, que tentavam manter ainda viva a República, ainda que de forma fictícia.
É de Marx uma célebre frase em que a História se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Já tínhamos visto como, na época de Cícero, a ausência duma lei fundamental permitia as mais diversas e flexíveis interpretações dos limites do regime, colocando a sua sobrevivência no carácter dos indivíduos que, em dado momento, ocupassem as magistraturas da República; com Augusto o problema que um privatus todo-poderoso, mas que não exerce qualquer cargo, coloca à sua sucessão, na indefinição e confusão em que lança todo um Império, com um Senado que se tinha revelado incapaz de dar resposta às novas realidades que a expansão do Império tinha colocado, não parece ter capacidade para resolver as contradições do regime Imperial. Pois, se tomarmos Suetónio como uma leitura a partir do Senado da acção dos Imperadores, o que vemos é uma ordem guardiã dos mos maiorum aceitar como optimus princeps um general de uma família sem grande passado, que precisa de milagres para criar prestígio, e que é o intérprete de profecias de povos inimigos; e rejeitar, como monstro, como pessimus princeps, um bisneto de Augusto, um que se poderia reclamar com toda a propriedade um deus – não tinha Augusto sido divinizado? - ,e que transportava para a realidade política o helenismo partilhado pelos poetas, pelos filósofos e pelos... senadores.
A história repete-se. Primeiro como República, depois como Império. 





quinta-feira, 18 de maio de 2017

Uma pena


Um dos heróis da minha adolescência sabe agora um pouco mais do que eu.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Glória aos céus

É hora de exultar. Ao que parece, apareceu para aí um filósofo (?) francês (?) a garantir que Jesus nunca existiu. Eu que tenho de o aturar no Sporting, discordo, mas que importa? Uma breve expedição pela Internet portuguesa traz à superfície uma claridade que só da razão mais desenvolvida pode nascer. Não fazia a mínima ideia de que havia tanto aborígene lusitano especialista em grego (pensava que era costume desistirem quando se chega aos dialectos), Latim e hebraico (bíblico, com certeza), com acesso privilegiado às fontes da história, da teologia, da filosofia, da matemática,  etc. Tanta gente que podia, se a imprensa inglesa ou francesa lhes desse tempo para tanto, traduzir um passo ou outro de Nono de Panópolis, um tratado científico ali das horas bizantinas, sei lá, tanta coisa simples para quem sabe tanto.

(Não acredito que se tratem de grunhidos saídos do analfabetário nacional. Isso até seria ofensivo. Longe de mim, que eu sou cristão, mas sei ver as coisas, e tudo isto não é apenas um daqueles peidos com que os idiotas do costume se excitam. Não. É uma coisa séria.  )

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Salvatores Dei


Είδαμε τον ανώτατο κύκλο των στροβιλιζόμενων δυνάμεων. Τον κύκλο αυτόν τον ονοματίσαμε Θεό. Μπορούσαμε να του δώσουμε ό,τι άλλο όνομα θέλαμε: 'Αβυσσο, Μυστήριο, Απόλυτο Σκοτάδι, Απόλυτο Φως, Ύλη, Πνέμα, Τελευταία Ελπίδα, Τελευταία Απελπισία, Σιωπή. Μα τον ονοματίσαμε Θεό, γιατί τ' όνομα τούτο μονάχα ταράζει βαθιά, από προαιώνιες αφορμές, τα σωθικά μας. Κι η ταραχή τούτη είναι απαραίτητη για ν' αγγίξουμε σώμα με σώμα, πέρα από τη λογική, τη φοβερην ουσία. 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Heróide I - Uma primeira leitura

Haec tua Penelope lento tibit mittit, Ulixe;… escreve a raínha de Itáca uma epístola como aquela que Aretusa remetia para o seu Licotas (Prop. IV. 3), o soldado que percorria as rotas do oriente, que alcançava as águas de Leste, o solo dos Partos, os montes da Cítia, os mares e os gelos e os ventos ora favoráveis, ora desfavoráveis ao povo da Itália. Só o corpo da mulher não era permeado pelo êxtase do gládio.  E Aretusa sofria e, assim, também Penélope sofre.
                Sabemos bem como as palavras eram importantes: a sua ordem, o seu peso e significado, a sua ambiguidade. Tua Penelope lento... ela, Penélope, só a Ulisses pertence - o modelo de fidelidade homérica permanece ainda intacto na elegia latina. Só Ulisses se transformou: não é o homem astuto que tanto vagueou, que destruiu a cidadela sagrada de Troía, que observou muitas cidades e conheceu muitos homens; não é o protegido da deusa Atena, que o envelhece e renova, conforme a sua vontade, nem o amante da ninfa, da feiticeira, nem o homem que desperta no lindo rosto de Nausícaa os primeiros latejos eróticos. Para Penélope, ele é lentus... Ulixes. A tradução portuguesa verte lentus como vagaroso e, de facto, qualquer dicionário nos indica que esse é um dos significados do adjectivo. Porém, estamos dentro da elegia, que não só possui uma métrica própria, ou uma temática ou estrutura única, como também um vocabulário de uma subtileza particular; lentus não é apenas aquele que se demora, que vai ou chega devagar, mas, essencialmente, marca o que está extinto, o que é indiferente, insensível ou vazio. Assim em Propércio:

A pereat, si quis lentus amare potest! (1.6.12) ,

em Tibulo:

Eheu quam Marathus lento me torquet amore! (1.4.81),

E também já nos Amores,

ille habet et silices et vivum in pectore ferrum,
qui tenero lacrimas lentus in ore videt. (3.6.59-60)

Então, o Ulisses da primeira Heróide é o amante insensível, o marido frio, distante, sem fulgor ou ânsia de regressar para junto da mulher. É isso que ela lhe pede: Nil mihi rescribas a    ttinet: ipse veni!  A leitura da Odisseia tenta-nos a uma interpretação imediata. Penélope não quer que Ulisses lhe escreva, pois ele é demasiado hábil com as palavras e até a uma deusa mentiria, enfim, só a presença dele revelará alguma coisa de verdadeiro. Essa interpretação, porém, ignora o desejo exprimido no imperativo, embora não totalmente desvelado à primeira leitura. Não é da mentira que ela tem medo; é a ausência de Ulisses que a fustiga, envelhece e extingue. Ele tem de voltar em pessoa, para que também ela deixa aquele estado letárgico e choroso dum amor há tanto tempo por consumar. Para o poeta elegíaco, Ulisses é, aqui, o exemplo do mau amante, do homem lento e moroso que deixa a mulher por tomar. O jovem elegíaco tem muita pressa de amar. É num ritmo de erotismo, censura e lamento que Penélope prosseguirá a sua epístola.
                Mesmo quem nunca leu a Ilíada saberá qual a causa da guerra entre Aqueus e Troianos: uma mulher, filha de Zeus, e duma beleza tão extraordinária, a quem nem os regentes e anciãos troianos poderiam censurar como motivo para tão longa guerra:

οὐ νέμεσις Τρῶας καὶ ἐϋκνήμιδας Ἀχαιοὺς
τοιῇδ᾽ ἀμφὶ γυναικὶ πολὺν χρόνον ἄλγεα πάσχειν:
αἰνῶς ἀθανάτῃσι θεῇς εἰς ὦπα ἔοικεν. 

(Il. III, 156-159)

Os seres demasiado belos têm sempre em si o sabor da morte e da solidão. Páris, esse insanis adulter, provou dos prazeres da loucura de Eros, mesmo em pleno combate – não encontramos já em Homero, bem vivos, os laços entre a guerra e o amor, entre o homicídio e o sexo? – e, agora, Penélope luta contra o abandono que a guerra de Tróia trouxe às jovens dos Dánaos. Ovídio mantém o controlo absoluto do estilo, para roubar a expressão a Ezra Pound, e mantém-nos, a nós, dentro do vocabulário e da sexualidade latente da elegia. À recordação do adultério de Alexandre segue-se, quase como num jogo de antíteses, o reflexo da fidelidade de Penélope e de como o mundo natural e doméstico se moldam à sua desolação: deserto lecto, tardos dies, spatiosam noctem, pendulas manus – imagens da mulher frigida, que no léxico elegíaco não significa somente fria ou gelada, mas sim sexualmente incompleta, que dá a Penélope todo o significado da ausência de Ulisses, que não lhe preencha o tálamo sagrado,  lhe apresse os dias na modesta Ítaca, que mostra Penélope sem o Rei que a tome e faça a noite parecer tão curta, sem a carne, a pele e o sangue que a fazem um pouco mais viva, um pouco mais quente. Sozinha, nas mãos pode apenas atar um fio de mentiras (Od. XIX. 137) Sozinha, tem medo e sonhos.
                No canto XIX da Odisseia, Penélope pede a Ulisses, ou, melhor dizendo, a um estrangeiro dela desconhecido, que interprete um dos seus sonhos (XIX. 535), para, depois da resposta evasiva do estranho, mostrar que os sonhos são impossíveis e confusos, que uns são nocivos e falsos, outros verdadeiros e bondosos (XIX. 560-567); a razão para isso é que uns passam por portões de marfim, outros por portões de ouro. Para um grego, o que não habitasse nas regiões da consciência, seria, necessariamente, exterior ao homem e pertença dos deuses. Também Agamémnon experimentou a traição dos deuses pelo sonho. Porém, na Heróide I, Penélope sonha com a angústia e o medo que assoberbam o amor (v. 11), sonha com os violentos Troas que, no lugar dela, sobre Ulisses haveriam de cair. Mais importante de notar é que é de si que parte o sonho – quase que se podem escutar aqui os versos de Lucrécio, como um rumor de passarinhada alegre e jovem sobre a nova poesia de Ovídio:
~
Et quo quisque fere studio deuinctus adhaeret
Aut quibus in rebus multum sumus ante morati
Arque in ea ratione fuit contenta magis mens,
In somnis eadem plerumque uidemur obire.

                Ovídio vai um pouco mais longe do que Lucrécio. Não é só aquilo com que o espírito se alegre que vem ao nosso encontro em sonhos; é, acima de tudo, naquilo em que o espírito encontra a sua plenitude, no lugar onde a sua verdadeira natureza se revela e preenche, é para aí que tende o sonho, mesmo que, como Penélope, não se encontre lá a alegria ou a felicidade imediata. Ao Amor pertencem também os territórios da tristeza, os espaços solitários, as horas vazias, as extensões, por vezes infindas, do medo e da angústia. No pectus amantis de Penélope não mora só Ulisses; encontram-se por todos os inimigos do amado, esses cuja mera invocação do nome é suficiente para lhe tornar o rosto pálido (v,14).
                Mas, por agora, os sonhos da guerra terminaram, das cinzas de troia Argolici rediere duces e é este o momento de Ovídio conduzir Penélope a uma viagem pelas emoções que se ocultam na contemplação distante da alegria dos outros. Ela vê os altares que fumegam, as jovens que ofertam dádivas aos deuses, os guerreiros que cantam, tudo isto sob o olhar admirado de velhos cansados e mulheres ainda temerosas (vv. 28-30) Quão distante está ela do mundo. Sem vítimas nem presentes para oferecer aos deuses, afasta-se dos desígnos celestes e dos benfeitores dos homens; na sua casa, o silêncio contrasta com a algazarra do exterior; a ela, nenhum velho admira, enquanto o temor impróprio das mulheres em nada se pode comparar com o dela, tão real e tão penoso. O seu coração não terá ainda sossego:

atque aliquis posita monstrat fera proelia mensa,
Pingit et exiguo Pergama tota mero.

Para compreendermos na sua totalidade o desespero de Penélope diante desta visão, um outro vislumbre da sua frustração erótica, teremos de ler uma outra epístola, ironicamente, a de Helena a Páris. Apenas dois versos:

Orbe quoque in mensae legi sub nomine nostro,
Quod deducta mero littera fecit, amo.

Como é tudo tão diferente para Penélope. O vinho, que transporta os sinais secretos dos amantes, as palavras secretas e expressivas da paixão (Amores, 1.4.18-20), a ela traz os mapas da guerra, a corrente do Simoente, o palácio de Príamo, as tendas dos Heróis, a tenda de Ulisses... todo o mapa da sua desunião com o marido; o vinho deu a Helena uma promessa de amor sensual, a ela, a cor rubra na mesa só reafirmou os traços do afastamento, e dá-lhe notícias que ela já conhece (vv.37-38). O filho também já lhe tinha contado de Reso e de Dólon, de cuja autenticidade os filólogos da antiguidade já desconfiavam. Mas quem se preocupa com o genuíno, quando se trata de construir uma espécie de identidade nacional? O episódio da Doloneia serviu para os poetas latinos mancharem a aura divina dos heróis aqueus, no tempo em que procuravam as raízes de Roma nos heróis troianos. Era quase inevitável que Ovídio fizesse eco de Virgílio: no templo que Dido dedicava a Juno, Eneias pôde ver as tendas de panejamentos brancos de Reso, atraiçoadas pelo primeiro sono, que o sanguinário filho de Tideu devastava com uma grande carnificina (Eneida, I. 469-471). Na Heróide, Penélope, hipnotizada pelo amor, reclama para o seu herói os méritos da chacina e da vitória nocturna, e atribui ao triunfo de Ulisses o mais simples dos motivos: At bene cautus eras et memor ante mei! É o momento em que o herói homérico, ansioso pelo combate, se encontra com a heroína de Ovídio, sedenta, também ela, de confronto e de lutas nocturnas,  os mil artifícios de Ulisses se inspiram pelo amor sem limites de Penélope, e a noite que foge e apressa o filho de Laertes  (παροίχωκεν δὲ πλέων νὺξ τῶν δύο μοιράων, τριτάτη δ᾽ ἔτι μοῖρα λέλειπται) encontra-se com a noite da Arte de Amar, em que Penélope pode disfarçar a as suas imperfeições e sentir-se amante e bela antes do amanhecer:

Nocte latent mendae, vitioque ignoscitur omni,
Horaque formosam quamlibet illa facit.

(249-250)


                Mas, de imediato, a mente de Penélope clareia, e uma outra metáfora surge-nos. Ulisses escapou ileso, é verdade, mas de que lhe vale isso se, afinal, uni mihi Pergama restant? O tempo só passa para os outros; é o trigo, e não homens, que é ceifado pela foice (v.53), e o sangue dos guerreiros frígios fecundou a terra, que agora desabrocha, os ossos dos mortos são esmagados pelos arados e a erva esconde as ruínas da guerra (v.54-55). A natureza renova-se e a vida prossegue o seu curso indiferente à técnica e a civilização dos homens; mas para ela nada mudou, Pérgamo permanece em si, só nela, como se ela própria se tivesse tornado numa cidade de altas muralhas, que espera pelo soldado que lhe porá cerco, ou pelo assédio do amante aos seus portais implacáveis (Amores. 9. 19-20); um e outro, soldado e amante, são o mesmo. Ulisses triunfa ausente (v.57) sobre ela, a quem nada mais resta do que escrever cartas e indagar a todos os que aportam à sua cidade sobre o paradeiro do vencedor amoroso. A dúvida apoderou-se dela:

Quas habitas terras, aut ubi lentus abes?

Que terras o poderiam fazer demorar-se tanto nesse estado desprovido de paixão, que lugares poderiam tê-lo feito esquecer-se dos incêndios que o aguardam em Ítaca? Porquê tão lentus ainda? Tamanha é a força da incerteza, que acaba, por fim, por ser levada ao desejo insensato de que a guerra ainda prosseguisse (v.66), pois desconhece até do que há-de ter medo, e com o medo vem a angústia (v.72). Neste momento, pressente-se um jogo irónico entre Ovídio e os leitores e ouvintes da epístola de Penélope; pois o poeta fará com que a raínha de Ítaca escreva uma história que sabemos não ser a de Ulisses, levando aqueles que lêem ou escutem os versos a interpelar a esposa abandonada.
                Começa por reforçar os seus sentimentos de desconfiança (suspicor) e de demora (mora), acusa Ulisses de só desejar o perigos do mar e da terra (Haec ego dum stulte metuo, quae vestra libido est) – algo que o poeta elegíaco censura - e desvela o seu mais profundo temor:

Esse peregrino captus amore potes.
Forsitan et narres, quam sit tibi rustica coniunx,
Quae tantum lanas non sinat esse rudes.

Foi Vladimir Nabokov quem ensinou que a Literatura não nasceu quando um rapaz gritou «Lobo! Lobo!» e saiu a gritar do vale de Neanderthal com um grande lobo atrás de si – a literatura nasceu quando um rapaz apareceu a gritar «Lobo! Lobo!» e não havia lobo nenhum a persegui-lo[1]. Penélope grita «Lobo! Lobo!», mas os leitores de Homero, como o eram Ovídio e os poetas latinos, sabem que não há lobo nenhum. Não ouvimos nós o canto V da Odisseia?

πότνα θεά, μή μοι τόδε χώεο: οἶδα καὶ αὐτὸς
πάντα μάλ᾽, οὕνεκα σεῖο περίφρων Πηνελόπεια
εἶδος ἀκιδνοτέρη μέγεθός τ᾽ εἰσάντα ἰδέσθαι:
ἡ μὲν γὰρ βροτός ἐστι, σὺ δ᾽ ἀθάνατος καὶ ἀγήρως.
ἀλλὰ καὶ ὣς ἐθέλω καὶ ἐέλδομαι ἤματα πάντα
οἴκαδέ τ᾽ ἐλθέμεναι καὶ νόστιμον ἦμαρ ἰδέσθαι.
(215-221)

Quem não será tomado dum pouco de entusiasmo e de enlevo e não tenha em si também o desejo de dizer Penélope que nada há a temer, que Ulisses não ficou prisioneiro de nenhum amor estrangeiro, e que nada mais deseja do que regressar a casa? Não é este o género de fruição ingénua que Ovídio pretende despertar em quem escuta ou lê?
                Depois de tanta dúvida e de tanto tormento, e depois dum verso em que confessa que o próprio pai a deseja expulsar daquele viduo lecto, a reafirmação da pertença:
Penelope coniunx semper Ulixis ero

Ao dizê-lo, leva-nos para Ítaca, onde a turpiter absens de Ulisses – o poeta elegíaco não consegue, de facto, perdoá-lo – é causa de desordem política e familiar. As mãos de Eurímaco e de Antínoo, ao contrário das de Penélope, são avidas; Iro e Melântio provocam a vergonha e o prejuízo do palácio real, e as três criaturas indefesas, Penélope, Telémaco e Laertes estão à mercê da maldade de muitos. Abandonamos aqui, por momentos, ou talvez definitivamente, os espelhos eróticos da epístola. Os últimos versos podem ter uma outra leitura – não nos esqueçamos que, apesar de tudo, estamos na época de Augusto. A Ítaca que Penélope descreve em nada difere da de Homero, mas não será certamente por acaso que, numa carta de cariz amoroso e, por vezes, lascivo, se convoquem os nomes do antepassado e do descendente de Ulisses. Laertes é um senex sem préstimo para as armas (e para o amor) e não é capaz de exercer o mando. Com Telémaco virá uma época de mais valentia, e, roga aos deuses, o restabelecimento da ordem natural das coisas, em que o Pai instrui o filho nas artes que domina, e o filho, chegado o tempo, fecha os olhos dos progenitores; mas, para que a ordem seja restaurada, Ulisses tem de regressar. A súplica do segundo verso repete-se, dum outro modo:

Tu citius venias, portus et ara tuis!

                 Há ainda um último vislumbre amoroso na epístola de Penélope. Afinal, o tempo passa também para Penélope. A tardança, a lentidão e as paisagens interiores imutáveis são uma ilusão do sofrimento. O destino é inexorável e os dias avançam e com eles marcha o seu rosto e o seu corpo para a velhice e o desdém. As amantes elegíacas são jovens, belas, perfumadas... Ulisses tem de regressar; talvez por não ser apenas o esteio político de Ítaca, mas, acima disso, muito acima disso, para que Penélope lhe possa ainda mostrar o pouco da juventude que lhe resta, e se possa sentir, uma vez mais, uma mulher amada, absolutamente amada.