domingo, 8 de janeiro de 2017

Tania


Tania, assim se chamava a minha nova camarada da Polónia. De momento tinha uma vida febril, percebi eu, por causa de um empregadeco quarentão que trabalhava num banco e era seu conhecido dos tempos de Berlim. Desejava voltar à sua Berlim e amá-lo, desse por onde desse e a qualquer preço. Para ir ter com ele teria feito tudo.
Ia atrás de agentes teatrais, esses prometedores de contratos, até ao fundo de escadas que cheiravam a mijo. Beliscavam-lhe as coxas, esses malvados, enquanto esperavam respostas que nunca chegavam. Mas só muito vagamente ela reparava nessas manipulações, de tal forma o seu amor longínquo a possuía por inteiro. Em semelhantes condições, não passou uma semana sem ocorrer uma pavorosa catástrofe. Há semanas e até meses que ela abarrotava o Destino com tentações, como um canhão.
A gripe arrebatou-lhe o prodigioso amante. Soubemos da desgraça um sábado à noite. Mal recebeu a notícia arrastou-me, desgrenhada e desvairada, ao assalto da Gare do Norte. Mas isto ainda não era nada; no seu delírio, disse na bilheteira que queria chegar a Berlim a tempo do enterro. Foram precisos dois chefes de estação para a dissuadir, para lhe fazer compreender que era tarde de mais.
No estado em que se encontrava, nem pensar em deixá-la. Aliás, insistia no trágico e mais ainda em mostrá-lo em pleno transe. Que momentos! Não há duas opiniões, os amores contrariados pela miséria e pelas grandes distâncias são como os amores de marinheiro, irrefutáveis e de êxito assegurado. Sem ocasiões para encontros frequentes, começa por não ser possível haver insultos, o que já é alguma coisa ganha. E como a vida não passa de um delírio abarrotado com mentiras, quanto mais longe estivermos e quanto mais o rechearmos de mentiras, mais contentes ficamos, é natural e vulgar. A verdade não é comestível.

Louis-Ferdinand Céline, Viagem ao Fim da Noite

A canção retrata este episódio do mais extraordinário dos livros. Quando tiver mais tempo (e mais vontade) ainda a traduzo.

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