segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Monograma



[Para a L. - para sempre, o meu Paraíso]

I

Por ti lamentarei para todo o sempre
- ouves-me? -,
sozinho, no Paraíso.

Irá, como um agulheiro,
desviar as linhas da palma
- o Destino.
Irá, por um momento, ceder 
- o Tempo.


Como não, assim desde que os homens se amam.

Os céus serão o teatro das nossas vísceras,
e fustigará o mundo a inocência
feroz como a negra morte.

II

Lamento o Sol e lamento os anos que chegam
sem nós e canto os outros que partiram
se esta é a verdade.

Os corpos enunciados e os navios que embatiam docemente
as guitarras que tremiam debaixo das águas -
«Acredita em mim», «não»
agora no ar, agora na música.

Dois pequenos bichos, as nossas mãos
que procuravam em segredo trepar uma na outra
o vaso com o gerânio nos portões abertos do jardim
e os pedaços dos mares que vieram juntos
por cima d'alvenaria seca, atrás das cercas
a anémona que pousou no teu braço
e a púrpura fremiu três vezes, três dias
sob a queda de água.

Se estas coisas são verdade eu canto
a trave de madeira e o tapete com quatro lados
na parede, a Górgona de cabelos desprendidos
o gato que nos olhou no negrume.

Criança que segura o olíbano e a cruz cor-do-sangue
a hora em que escurece sobre as rochas alcantiladas
lamento as vestes que toquei e a mim veio o mundo.

III

É assim que falo de ti e de mim

Porque eu amo-te e no amor sei
penetrar como uma lua cheia
de todos os lugares, para o teu pequeno pé na vastidão
dos lençóis
colher o jasmim - e tenho a força
tu adormecida, de soprar e levar-te
por passagens lunares e ocultas e marinhas
arcadas
Árvores hipnotizadas com aranhas que de prata resplandecem

Ouviram de ti as ondas
como acaricias, como beijas,
como dizes murmurando «Que é?» e «eh»
em torno do pescoço a enseada
Sempre nós a luz e a sombra

Sempre tu a pequena estrela e eu a sombria
nau
sempre tu o porto e eu o farol à direita
o húmido cais e o brilho sobre os remos
ali em cima na casa com as vidreiras
as rosas amarradas, a água que refresca
sempre tu a escultura de pedra e sempre eu a sombra
que cresce
a persiana entreaberta tu, o vento que a abre eu
porque eu amo-te e amo-te
Sempre tu a moeda e eu a adoração que lucra

Assim a noite, assim o rugido do vento
assim a gota no ar, assim o silêncio
à volta é o mar o opressor
arco do céu com estrelas
Assim o teu mais leve fôlego

Que eu não tenho mais nada
entre as quatro paredes, o tecto, o chão
chamar por ti e ser derrotado pela minha voz
recender por ti e provocar a ira dos homens
porque o que não é experimentado e o que é estrangeiro
não podem os homens suportar e é cedo, ouves-me?,
É ainda cedo neste mundo amor meu.

Falar de mim e de ti

IV

É cedo ainda neste mundo, ouves-me
Os monstros ainda não foram domesticados, ouves-me
O meu sangue perdido e a afiada, ouves-me
faca
como carneiro que corre pelos céus
e dos astros os ramos fende, ouves-me
Sou eu, ouves-me
Amo-te, ouves-me
Seguro-te e tomo-te e visto-te
No níveo e esponsal vestido de Ofélia, ouves-me
Porque me deixas, onde vais, e quem, ouves-me

Segura a tua mão por cima do dilúvio

As longuíssimas lianas e dos vulcões a lava
virão um dia, ouves-me
para nos sepultar e milhares de anos tardios
farão de nós rochas luminosas, ouves-me
para que sobre eles brilhe a crueldade, ouves-me
dos homens
e em milhares de fragmentos nos arremessem.

Nas águas um a um, ouves-me
os meus amargos seixos conto, ouves-me
e o tempo é uma grande Igreja, ouves-me
onde às vezes as figuras
dos Santos
emanam uma lágrima verdadeira, ouves-me
os sinos abrem no alto, ouves-me
uma passagem profunda para que eu passe
aguardam os anjos com velas e fúnebres
salmos
não vou a lado nenhum, ouves-me
ou nenhum ou os dois juntos, ouves-me

Esta flor da tormenta e, ouves-me
do amor
cortámos de uma vez para sempre
e não pode tornar a florir, ouves-me
num outro campo, numa outra estrela, ouves-me
não existe o solo, não existe o ar
que tocámos, o mesmo, ouves-me

E nenhum jardineiro viveu outra sorte

De tanto Inverno e de tantos ventos do norte, ouves-me
agitar uma flor, só nós, ouves-me
no meio do mar
pela vontade do amor só, ouves-me
levantámos uma ilha inteira, ouves-me
com grutas, promontórios e floridas falésias
ouve, ouve
quem fala para as águas e quem chora - ouves
quem chama pelo outro, quem grita - ouves
Sou eu quem grita e sou eu quem chora, ouves-me
Eu amo-te, eu amo-te, ouves-me

V

De ti tenho falado em tempos antigos
com sábias governantas e rebeldes idosos
de onde te veio a sombra de agrimi
o brilho no rosto das águas trémulas
e porquê, espanto-me, destinado a aproximar-me de ti
eu que não quero amor, mas o vento,
mas o livre e recto galope do mar

E de ti ninguém ouviu falar
de ti não o dictamo não o cogumelo
nos lugares altivos de Creta nada
até ti apenas Deus aceitou guiar a minha mão

Mais pr'aqui, mais pr'ali,atentamente à volta
da face da beira-mar, as abertas, os cabelos
na colina que ondulam à esquerda

O teu corpo imóvel solidão de pinheiro
olhos de orgulho e de diáfano
abismo, na casa com gabinete chinês velho
os rendilhados amarelos e a madeira do cipreste
sozinho esperando onde aparecerás
ali em cima na varanda ou atrás das lajes do pátio
com o cavalo do Santo e o ovo da Ressurreição

Como que saída dum mural destroçado
grande como que te queria a ínfima vida
contendo na vela o retumbante clarão vulcânico

Ninguém tendo visto ou escutado
nada nas abandonadas ruínas das casas
nem o ancião enterrado ao pé das paliçadas do jardim
de ti nem a velha com todas aquelas ervas

De ti só eu, talvez e a música
que expulso do meu interior mas que torna mais forte
por ti o ainda não formado peito dos doze anos
olhando o futuro pela cratera rubra
por ti como um alfinete o odor amargo
que encontra o corpo e perfura a memória
e aqui o solo, e aqui as pombas, e aqui a nossa terra ancestral

VI

Tenho visto muito e a terra através da minha mente parece-me mais bela
mais bela em dourados vapores
a pedra aguçada, mais belos
os lábios azuis dos istmos e os telhados nas ondas
mais belos os raios de sol que atravessas sem pisar
invencível como a deusa da Samotrácia sobre 
as montanhas do mar

É assim que te tenho visto e isso basta-me
e todo o tempo para ser absolvido
no sulco que os teu pés deixam para trás
como um golfinho ingénuo seguindo-te

E a minha alma brincando com o branco e com o azul

Vitória, vitória onde derrotado
antes do amor e com ele
pela passíflora e pela árvore-da-seda
vai, vai, mesmo que eu esteja perdido

Sozinho, ainda que esse Sol que seguras seja uma criança
agora nascida
sozinho, e deixa-me ser eu a pátria que lamenta
e possa a palavra enviada segurar para ti uma folha de louro
sozinho, o vento forte e sozinho o redondo
seixo no brilho do fundo negro do mar
o pescador que ergueu e atirou outra vez para trás dos tempos
O Paraíso!

VII

No Paraíso tenho marcado uma ilha
semelhante a ti e uma casa à beira-mar

Com uma grande cama e uma porta pequena
atirei para esse abismo sem fundo um eco
para me ver em cada manhã que acordo

Para ver metade de ti passar nas águas
e outra metade que me faz chorar no Paraíso...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Eneida

És tu quem me permite ter lugar nos banquetes dos deuses, e me fazes senhor das nuvens e das tempestades.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Namoradas de Valentim

Pois que também eu tenho encontros amorosos e vou jantar com as minhas quatro amigas: a memória, a saudade, a solidão e a morte. Um dia igual aos outros.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Religião popular


Enfim, é uma tristeza, uma agonia, isto de no dia dos namorados não poder jantar a Marianna... bom, a vida é pouco democrática... e, desde que foi mãe, ainda está mais... apurada, com mais sabor. Deus seja louvado.

Murr


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O Joã Ceguinhe

Era um home muite pobrezinhe. Tinha dôs compadres muite riques e os compadres érim muit' invejosos: tínhim inveja de tude quante tinha; tud' eles cobiçávim pra eles. Eles tínhim muite dinhêr.
O tal João Ceguinhe era muite pobrezinhe e tinha 'ma burrinha lá im casa. A burra era já velha, na prestava. Diz um:
- Os nossos compadres sã mui' invejosos! Vêim aí munta vez. Tude quante a gente tem cá im casa cobícim tude... Vamos lá ver se somos capazes dos enganar, que l'hê-de receber um pouque de dinhêre pa burra.
A burra 'stava na loja. Diz a mulher pra ele:
- Ah! Qué ver com'é qu'os enganas, os compadres. Eles stã riques e tu és pabrezinhe! Eles têim o que quérim, porque sã spertes e tu és parvo! Com'é que'és capaz de os inganar?
-Inganames!
Tinha lá quate libras im casa, quate libras im ôr. Diz ele:
- Inganames! Agora, vê, mê'tas libras a comer à burra; a burra esta nôte sterca e as libras cáim mesturédas no strumes. Eles amanhã vêim aqui, 'stão a falar comigu' aqui e ê vô ali, sgravate no 'strume da burra e tire de lá 'ma libra. Depôs 'gravat'ôtra vez, 'tir' ôtra; sgravat'ôtra vez, tire ôtra.
'Sgravatô quatre vezes, terô quate libras. Diz:
- Esta burra é 'ma fortuna qu'aqui tenhe! Êlh'ò que cagô esta nôte! Caga dinhêr, caga libras im ôr!
Diz:
- Eh, compadre, daqui a pôque stás rique! Quante qués pa burra, compadre? Qués vander a burra?
- Ele nã. 'Tã, ond'é que vend' isto? Tã, hoje dêtô quate libras, amanhã dêta oite!
- Eh, compadre, a gente damos-te muite dinhêr pa burra!
- 'Tã vá! Dás-me vinte contos pa burra.
E os ôtros puxárim pa cartêra.
- Vá, toma lá.
A burra stava quase morta. Levárim.na prà loja deles, pra casa dels. Cand' era a passárim pò pé da burra:
- Isto quante más comer se le dêta, más grã, más palha, más libras dêta, más libras caga!
E pos jêtes, no ôtro dia, levárim na burra prà loja: botar de comer... Eles érim nos dôs muit' invejosos. Logue de manhã, sem'à roda da burra, ver quande a burra stercava pa dárim volta ò sterque.
- Ora, nã dêtô nada!
Fôrim lá a casa dele.
- Õ compadre! 'Tã, diz ca burra que fázi' àssim, que fazi' àssado, qu'onte dêtê quate libras, hoje dêtéva oite... Nã mes dêtê nada!
- É mintira! Vocês na sabedes tratar da burra. Tragam cá a burra, ôtra vez, qu'ê é que sê tratar dela; se quérim ver o qu'é que'ela aí traz amanhã. Amanhã de manhã vêim cá ver.
Ora, já tinha muite dinhêr cos ôtres le tinhim dade. Bota-le lá dez ô doze libras pa dente da barriga da burra.
Quande eles lá chegárim, no ôtro dia de manhã:
- Vamos lá ver!
Começô a sgravatar, eh, 'ma manchada de libras, 'ma manchada de denhêr pò bolse,
- Pxé!... É vocês que nã sábim tratar da burra. Más 'ma remessa de dinhêr. Agora já nã a vende. Tome lá o dinhêr, que me dérim e a burra fica cá na minha casa. Já nã a vend' ôtra vez.
Os ôtres:
- Oh! 'Tã, damos-te más corente contes pa burra.
Levárim ôtra vez a burra, lá pra casa deles.
- Fô vocês nã sabérim tratar dela.
- Oh! Amanhã vás lá tu tratar dela.
- Stá bem.
Nã aparcê lá, Tinha'àquel dinhêr no bolse, era rique, não aparcê lá. Eles fôrim lá despostes a matárim-no.
- Eh, compadre, tod'à manêra inganeste-mes. Atã, a burra na dêta dinhêr como dêtava!
- Ah, nã sê... Ela degenerô, já nã dêta más. 'Spérim aí um bocadinhe, qu'ê já venhe.
Ele demerô-s'um bocadinhe. A mulher tinha' ali dos coelhos ò funde das 'scadas. Diz pòs coelhes:
- Iste sã dôs criédes, qu'aqui tenhe. Vai lá chamar o snhô Joã.
- Eh! Que belos criédos, qu'aqui tenhe! Vã aviar todes os mandades. qu'ê quer; vã me chamar, onde qué qu'ê 'stô!
- Eh, compadre, que beles criédes, qu'aqui tens!
Já nã quérim saber da burra.
- 'Tã, qués vender os coelhos, compadre?
- Ê nã! Ond' é que hê-de vender isto? 'Tã, agora, and'além ò funde da horta, os coelhes vã-me chamar; tenh' um criédo, é preciso lá ir um criédo perder tempo pa m'ir busquér; e os coelhes vã, onde precse, nã le pague soldada nim le dô de comer, só le dêt'ervas!
Lá fezérim o negoce de dinhêr. Foi até pôque dinhêr, que le dérim. Os coelhes fôrim num grande bocade, vei um cã logue, comê-es. Féquérim sim coelhrs. Cand' ele lá chegô:
- Ah! 'Tã, os coelhes desaparecêrim!
- 'Tã, os coelhes na pódim ver cãs - os cãs cómim-nos logue; vocês dêxérim chegar o cã ò pé deles, comê-os logue!
Pronte, ali stevérim. Fequérim munte amigues. Almárim 'ma muça, lá im casa. Fôrim-se imbora.
- O nosse compadre Joã Ceguinhe vai ele 'stande rique e a gente pobre... Com' é que'ele arranjô aquil'?
E comecárim com eles:
- Ah! Dêxéste-vos inganar. Inganô-vos cos coelhos, inganô-vos com essas vidas todas; inda vos ingana com más côsas!
- Ah! Ond' é qu'ele mes ingana? Vames lá a casa, vâmesi-o lá matar! Vâmesi-o lá matar, o compadre!
Diz ele:
- Oh! Nã me mátim! Nã me mátim, desta menêra e de ôtra.... Tenhe pr'àí mas vidas, um dinhêr a receber... Ê dô-vos o dinhêr, que vocês mes dérim, vames a tal site...
Mas meérim no dente duma saca pa írim lá receber o dinhêr. Ele lá disse o site; levárim-no logue dente da saca. Chegárim a um certo site, passárim numa igreja. Ele lá vi pos buraquinhos da saca...
-Oh! 'Stá aqui 'ma igreja! Vã pa me matar, vã sequer rezar ali 'ma oração, ali àquel igreja, pa minha alma, qu'ê morre!
Passa ali um pastor cum rebanhe de borregues e ele 'stava lá agachéde, dente da saca. E o pastor diz co pé:
- 'Tã, que 'stá você aqui a fazer?
- Pxiu! Você cale-se! Você se qué sê munte rique, meta-se aqui nesta saca, qu'ê vô guardar os sês borregos. Esta saca tem aqui munte dinhêr.
Abri-l'a saca, botô a fugir da saca pra fora e agachô-se lá o pastor. Os compadres viérim de lá, assim lá da igreja, de rezar as orações por alma dele, qu'ia morrer; botárim o saco ôtra vez às costa, ala! Chegérim ò rebêr, que levava munta água - um ri a correr por i fora. Cheguérim. Catrapus! Aventárim no pastor lá pa dente da água,
- And' aí, que já morrestes. Agora, fica aí. Agora, vamos nós imbora pra casa.
Fôrim andande, andande, por esses côses fora. Incontrárim no compadre Joã Ceguinhe a guardar um rebanhe de borregues. Pôs-s'assim a olhér:
- Ah! Parece o nosse compare, qu'além and'à guardar os borregues.
- Oh! O nosse compadre! 'Tã aventâmesi-o, agora, pà rebêra. Já ond'é qu'ele vai cheguende? Vai cheguendo'ò mar, pa água abaxo.
- É ele, é ele! - assim um pò ôtro.
Fôrim ò pé dele.
- Eh, compadre, 'tã, andas aqui?
- 'Tã, pôs, nã hê-d'andar aqui? Vós sês parvos! Cada mergulhinhe que déva, agarrava um borregue; cada mergulhã que déva, agarrava um borregã; tenh« aqui esta remessa de borregues.
Deziim um prò ôtre:
- Eh! Vae lá nos também a guardar um rebanho, assim como ele.
Chega lá à ponte, catrapus! pa dente da água. E pronte.

Vitorino Cebolas Barreto

(conto recolhido por Cândida Baptista, 1967, in Contos Populares Portugueses)

«She rides to the sabbath... to make love to the Devil»


"Era normal (...) era muito frio (...) desde o início que era frio, mais direto ao assunto, não havia aquela parte mais romântica, mais preliminar (...) se existiu foi no inicio e muito pouco", desvendou Bárbara sobre o desempenho sexual do pai dos filhos. 

A apresentadora acrescentou ainda que o ex-marido a acusava de ter uma "mente pecaminosa" quando Bárbara lhe pedia mais carinho e preliminares. 

Bonus Pater Familiae

Mais depressa o Sporting ganha o campeonato do que tu arranjas uma namorada.

Pai, 10 de Fevereiro, 2017

Como é que diziam os agora extintos? My name it means nothing, my fortune is less...


Assim soava Zaratustra


(pelo menos ouvi aquela ali pelos 57:47... uma tradução alemã de Puschkin... é bonita... digo eu... e, sim, as composições são da autoria do Fred)

De volta ao Mediterrâneo

Rosa

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O sonho Liberal-Marxista*

A alegria no trabalho, a satisfação pela presença no mercado, a valorização dos activos...

*perdoe-se a redundância

A falta que tu me fazias


Um bocado exagerado, sem dúvida,  mas, enfim, bom, é só aquela fase em que 6 semanas se assemelham a 6 séculos, fase essa que já dura há uns 31 anos por aqui.

Voltamos à cultura num minuto, logo depois de eu ter comido as minhas torradas. Pão de Mafra com manteiga continua ser a minha maravilha no mundo. O engenho humano em todo o seu esplendor. 

Amor calamitoso


Traduzido, prefaciado e anotado pelo grande Abel. Comprai, porra, comprai.

Edição bilingue e tudo. 

Que cum per faciem non esset infima, per habundantiam litterarum erat suprema. Nam quo bonum hoc litteratorie scilet scientie in mulieribus est rarius, eo amplius puellam commendabat et in toto regno nominatissimam fecerat.

Era a Idade das Trevas...

Companhia fiel e segura




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Anatólia


É um dos meus tesouros, bastante comum e barato - como todos aqueles que tenho -, a partitura desta composição. Custou-me uma conversa uma das melhores tardes em Budapeste.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Rascunho

Só uma vez não faz mal e quando o jeito é pouco ainda menos. Alma amiga pediu-me há uns tempos para lhe escrever um pequeno filme. Como o talento aqui é pouco, o trabalho custoso e o abutre americano só se aproxima na hora da morte, só ao fim de cinco meses é que consegui acabar um rascunho com dez ou onze páginas; claro está que, ao fazer todo aquele trabalho de alfaiate, de tradução, de formatação e ajuste, grande parte do arrazoado revelou-se imprestável. É precisamente isso que fica por aqui, com todos os erros, todo o mau ritmo, a mescla de inglês e português, a ausência das cenas finais, etc. Sempre gostei de me envergonhar. Tenho um bocadinho mais jeito para traduzir textos bons do que para escrever maus, mas, enfim.




Moderato

Um quarto amplo sem outra mobília que não uma cama grande, uma cadeira e uma mesa de cabeceira. Tudo é branco e preenchido de luz. Uma janela grande abre para o mar, para os penhascos, e para a orla da pequena cidade; podemos ver também um grupo de homens velhos, vestidos à turca a conversar, a tomar chá e a fumar sentados numa mesinha, na rua, por debaixo da grande janela. O dia está quente e o Sol fustiga os homens e os animais que passeiam nas ruas.
Um jovem contempla junto à janela do quarto todo este cenário. Cabelo rapado, magro, veste apenas uma bata branca sem mangas – está doente. Atento a tudo, esboça sorrisos quando olha para os homens velhos que, em baixo, vão falando cada vez mais alto.
Um médico entra no quarto. O silêncio perdura. Ignorando o sinal da proibição de fumar, acende um cigarro. Puxa a cadeira para si e senta-se.

Médico
Queres?

Jovem
Não... não que faça muita diferença... não... quanto tempo?

Médico
(Acende o cigarro. Fuma)

Não sei... uma hora... um dia... um par de semanas, de meses...

Jovem
(rindo)
 De anos... luas...

Médico
Este cigarro...

Jovem
Vais dizer-me todas as medições do tempo?
(olhando os velhos na rua)

Talvez eles saibam quanto tempo há ainda para mim...

Médico
Eles sabem muitas coisas.

Jovem
No outro dia cantavam sobre os povos de antigamente, que habitavam nas terras do Norte. Diziam que quando uma criança nascia, as mulheres choravam, os homens entoavam os cânticos mais tristes que conheciam, pois muitos sofrimentos aguardavam pela criança. Mas quando alguém morria, celebravam como o dia mais feliz da sua vida, porque era mais um, que, naquele momento, se tinha libertado da dor.

Médico
Só pelo sofrimento os deuses ensinam

Jovem
Mas abandonaram-nos e deixaram-nos sozinhos. E o que há para aprender, quando falta tão pouco para a lição terminar?

Médico
Sabes... eu também conheço as minhas histórias. Antes da última guerra eu fui pelas aldeias deste país, com um caderno e uma caneta, para apontar no papel as baladas, os mitos e as lendas que as mulheres e os homens mais velhos ainda cantavam naquele tempo. Em breve, queimei o caderno e lancei a caneta para o lixo. Quando colocamos as palavras no papel, estamos a matá-las, mas quando as cantamos, uma e outra vez, elas ficam gravadas no coração, batem contra eles, e tornam-se sangue do nosso sangue, carne da nossa carne. Os bardos não estão todos mortos. Uma das baladas que ouvia cantar pelas nossas aldeias, contava a história de um amor trágico. o noivo fora enfeitiçado por uma fada das montanhas e, alguns dias antes do casamento, essa fada ciumenta atirara-o do alto de um rochedo. No dia seguinte, uns pastores encontraram o corpo e, numa árvore, o chapéu. Trouxeram o corpo para a aldeia e a noiva aproximou-se: ao ver o noivo inanimado, entoou um lamento fúnebre cheio de alusões mitológicas, texto litúrgico de uma beleza rude. Enquanto registava as palavras, dei-me conta de que a história me era familiar, que algures, de outrém, tinha ouvido algo de semelhante. Procurei informar-me da época em que a tragédia ocorrera: disseram-me que era «muito antiga». Mas, na verdade, tinha ocorrido, um dos pastores contou-me, apenas há quarenta anos, e, o mais espantoso, descobri que a heroína da balada estava ainda viva. Fui visitá-la e ouvi a história da boca dela. Tratava-se, afinal, duma drama bastante vulgar: por descuido, o noivo escorregara num precipício, não tendo morrido imediatamente; os seus gritos foram ouvidos pelos montanheses, que o transportaram para a aldeia, onde veio a morrer pouco depois. No enterro, a noiva e as outras mulheres de aldeia repetiram as habituais lamentações rituais, sem fazer qualquer alusão às fadas das montanhas. Quando contei esta versão dos acontecimentos aos aldeãos que se tinham enamorado da história, responderam-me que a velha já tinha esquecido tudo, que o desgosto a tinha tornado quase louca. Era o mito que eles cantavam que falava a verdade, a história verdadeira não passava duma mentira.

Jovem
E tu em qual delas acreditas?

Médico
Acredito naquela que nunca morre.

Jovem
Uma vez, li esta pergunta: does our unquenchable desire for immortality spring, not from the fact that we are immortal, but from the fact that during the short span of our life we are in the service of something immortal?

Médico
Isso, meu jovem amigo, não te sei responder. Mas, descendo dos céus à terra, sei que ela está lá em baixo à tua espera.

Jovem
Ela quer subir?

Médico
Disse que ia tentar.

Jovem
Então seja: deixa-a subir.



Mosso

Um pequeno camarim de um obscuro clube nocturno. Uma mulher completamente nua, com o corpo pintado com as cores e formas de um leão olha-se diante de um enorme espelho. Um par de asas brancas dão-lhe o aspecto de uma figura mitológica: a Esfínge.
Sentado junto à porta do camarim, está um homem velho e cego.

Velho

Small blame that one  should for such a woman long time suffer woes; wondrously like is she to the immortal goddesses to look upon.

Esfínge

- Só a tua memória me pode ver, mas, ainda assim, a cegueira não te amargurou o coração. Vai e anuncia-me com a tua voz doce. Só a ti a beleza obedece.

O homem deixa o camarim, passa por entre portas e cortinas até chegar ao palco. A sala é iluminada por umas poucas velas no centro das mesas, onde não se encontra nenhum cliente, excepto um.

Velho

Para aqueles que o viram e triunfaram sobre o fim da noite, para aqueles que sabem demasiado, para os loucos, para aqueles que eram uma faca e então feriram, para aqueles que eram um magarefe e então mataram, para aqueles que eram um coração e e então amaram: a Esfínge.

Ela entra e canta, num tempo lento e triste, duas estrofes de um poeta grego, Cavafy. No começo da segunda estrofe, abandona o palco e vai-se sentar, nunca parando de cantar, na única mesa que está ocupada naquela noite.

Esfínge

One candle is enough. Its gentle light
Will be more suitable, will be more gracious
When the Shades arrive, the Shades of Love.

One candle is enough. Tonight the room
Should not have too much light. In deep reverie,
All receptiveness, and with the gentle light—
In this deep reverie I will form visions
To call up the Shades, the Shades of Love.

O jovem na mesa é aquele que vimos no quarto da clínic. Tem ainda o aspecto de quem  não foi tomado pela doença. Tanto ele como a Esfínge olham com ternura para o outro, sorriem,  falam como dois namorados que trocam murmúrios nos lençóis.



Esfínge

Que animal de manhã caminha em quatro patas, de tarde em duas, e à noite anda com três?

Jovem

No princípio era a Palavra, não o enigma.

Esfínge

O enigma estava no meu canto

Jovem

Estava dentro de ti.

Esfínge

Mas os homens não o conheceram.

Jovem

Conheço as palavras, mas não a solução. Sou ainda teu escravo.

Esfínge

A vida, como o Sol, vai de casa em casa, até se afundar no horizonte. E os homens são como estações do ano:  uns, como a Primavera, são recomeço e esperança; são uma brisa fresca que passa pelo rosto de quem colhe as primeiras flores. Outros há que ardem como o Sol do meio-dia num dia de Verão, demasiado quentes e flamejantes; altos, altivos, pegam fogo à terra, aos corpos, e o seu calor invade a noite. Há aqueles que guardam desse calor e dessa luz apenas uma réstia e nos seus olhos aparece aquela cor alaranja dos finais de dia do Outono, em que o Sol parece banhado em sangue e vinho. Esses possuem a luz, mas não a alegria. Mas há ainda os outros, os que dentro de si trazem apenas o Inverno: desolação, fuga e morte. Os seus caminhos são perigosos, chove demasiado neles; as suas paisagens são estéreis, os elementos perderam o equílibrio: o ar demasiado frio, as águas violentas e revoltas, o fogo fraco e fátuo, a terra ensopada e morta.

Jovem

Mas os poetas dizem que, quando o grande rei te respondeu «homem!», te lançaste em desespero pelos penhascos abaixo.

Esfínge

Os poetas mentem demasiado.



Cantabile

A porta do quarto abre lentamente. Uma figura feminina revela-se: é a Esfínge, mas agora como mulher, com cabelos pretos que se estendem pelas costas, um vestido, também preto, comprido. Sem mais. Os pés nus, níveos, sem qualquer pintura nas unhas, avançam lentos, em linha recta, como que em passos de tango, largos, decididos, mas sem erotismo ou sensualidade. Detém-se, exactamente, no centro do quarto. O médico senta-se de costas voltadas para eles e retira da pequena mesa aquilo que parece ser uma partitura. No topo da página pode ler-se: Cantabile. O jovem doente continua junto à janela, sem nunca se voltar para ver o rosto da Esfínge; vê-o no reflexo do enorme vidro. Tacteia-o, percorre-o com os dedos, aproxima o rosto, olha o reflexo com um imenso amor e com uma imensa tristeza. O Sol está alto, mas o quarto sombrio. Iluminados só o rosto dos que estão de pé.

Jovem

Deus... ouvi no Oriente que Deus é como a janela de uma casa... os homens erguem as paredes, talham as portas, protegendo-se, fechando-se... mas deixa nelas um espaço intocado por onde entra a luz que a tudo ilumina

Esfinge

 E é pelas frestas que a tormenta transpõe os seus lares...

Jovem

... e ouvi que Deus era como o centro da circunferência: um ponto ínfimo, irrelevante. Porém, é nele que se apoia o compasso que desenha o arco e cada uma das lascas de grafite se mantém à mesma distância d’Ele...

Esfinge

O compasso quebra e as duas extremidades, uma fixa, a outra livre, separam-se e não se encontrarão...




Jovem

᾿Εν κύκλῳ ἴσον ἀπέχειν ἀπὸ τοῦ κέντρου εὐθεῖαι  λέγονται, ὅταν αἱ ἀπὸ τοῦ κέντρου ἐπ᾿ αὐτὰς κάθετοι ἀγόμεναι ἴσαι ὦσιν.

Esfinge

Circles said to touch one another are any which, meeting one another, do not cut one another.

Jovem

Por ti, viajei em navios de carga e atravessei o Atlântico e o Pacífico, para saber se nos portos as putas esperam pelos navios; mas os homens do mar só me falaram das sereias e do dia em que um caminhou sobre as águas; entrei em comboios nocturnos que iam para Norte e para Leste, só que os agulheiros dormiam e todas as estações anunciavam o teu nome. E assim abandonei as carruagens quando passávamos junto das montanhas, e, olhando para o cume, disse: eu vencerei. Então ascendi e cheguei ao cimo. Mas no momento em que ia gritar, Vitória!, exausto, trémulo, desesperado, o rosto da montanha transformou-se, a águia e a serpente recolheram-se nos abrigos, e os seixos que pisava soavam como os estalidos dos teus lábios, e o chuvisco tinha o sabor do teu suor quando eu triunfava sobre o teu corpo, e os trilhos da estepe diziam ser irmãos das tuas cicatrizes de infância. Tinha sido derrotado. Então desci para a cidade dos homens e sentei-me à mesa com mentirosos, para ouvir falar de ti; confessei-me a traidores na esperança de que me entregassem ao Centurião e Roma me julgasse;  e aprendi com sábios que ensinavam que todo o movimento é ilusão; mas um dia um deles morreu e os outros levantaram-se e foram embora. Fiquei sozinho. Guardava uma fotografia de ti, quase nua, estendida naquela praia desconhecida onde um dia me levaste. Não me lembrava da hora que o relógio marcava e tive medo que também a fotografia morresse. Com muita pressa corri para os artistas e mostrei-lhes o teu retrato e ordenei-lhes: gerai a eternidade! Um desenhou uma terrível tormenta nos mares, naufrágios, návios em chamas, homens afogados e disse: o princípio da vida é a água. Ela é o grande oceano.

Esfinge

Perguntei aos doutores da lei se tinham apontado as coisas dos deuses e dos tesouros do coração que me dizias para que eu adormecesse no teu peito...

Jovem

Outro desenhou um grande incêndio que devorava toda a terra e consumia os campos, os animais e toda a vida na terra, e disse-me: a origem da vida é o fogo. Ela é o grande incêndio que não tem começo nem fim.

Esfinge

Falei aos músicos, para que tocassem para mim as mesmas canções que tu me davas a ouvir, quando me dizias: no princípio era o Som...

Jovem

Mas um, quando viu o teu retrato, contraíu-se em dor; e não soltou uma única palavra até ao anoitecer. Aí, tomou a minha mão e disse-me: vem. Caminhámos durante horas, até que chegamos, por fim, a um promontório, de onde não conseguíamos ver absolutamente nada. E então disse-me: um tal lugar assim, este horizonte, onde o mar toca o céu, e onde hoje não consegues distinguir a luz de um navio que passa, ou ver o reflexo dos astros luminosos... foi o lugar assim que viu aquele que escreveu: e havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a face das águas. E Deus disse: faça-se luz! E houve luz...

Esfinge

Procurei em livros velhos as moradas e as gravuras daquela casa que um dia prometeste que habitaríamos, nos lugares altos, onde o nosso coração morava...

Jovem

E disse-me: ela é a face do abismo; ela é a face das águas. Ela é o mundo dividido pela luz de Deus. Ela é a luz que brilha no rosto de Deus.

Esfinge

E quando procurava a tua casa, uma mão tocou-me, uma mão fria de mulher. E sem deixar que me voltasse para lhe ver o rosto, murmurou ao meu ouvido: com quem quer que fales, onde quer que procures, só a mim encontrarás. E não disse mais.

Jovem

E então voltei para casa, mas não entrei nela. Esperei por ti nos portões, pois não podia ir sozinho.

Esfinge

(O vestido dela cai e começam a reaparecer as pinturas no corpo, como se tivessem vida própria. E ela, agora, canta)

Por ti, tinha posto três sentinelas
Tinha o Sol na montanha e a águia nos campos
E o vento frio do norte eu tinha nos navios.
Mas o Sol caiu e a águia adormeceu
E o vento frio do norte foi levado pelos navios
E assim foi dado tempo à morte e ela levou-te

Jovem

Não havia muita luz e eu estava sozinho...

Esfinge

O Sol morre, as estrelas morrem, as flores morrem, os animais morrem...

Jovem

  À tua espera, à espera que as luzes do teu automóvel rasgassem as trevas, mas sempre era outro alguém que chegava, um vizinho que tornava a casa, um estranho que se enganava no caminho, e consumi a minha vida, cigarro atrás de cigarro, cansaço atrás de cansaço, à espera que regressasses a casa...

Esfinge

Tu morres.

Jovem

E eras tu a minha casa.

Esfinge

 E tu eras o meu nome.