sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O Joã Ceguinhe

Era um home muite pobrezinhe. Tinha dôs compadres muite riques e os compadres érim muit' invejosos: tínhim inveja de tude quante tinha; tud' eles cobiçávim pra eles. Eles tínhim muite dinhêr.
O tal João Ceguinhe era muite pobrezinhe e tinha 'ma burrinha lá im casa. A burra era já velha, na prestava. Diz um:
- Os nossos compadres sã mui' invejosos! Vêim aí munta vez. Tude quante a gente tem cá im casa cobícim tude... Vamos lá ver se somos capazes dos enganar, que l'hê-de receber um pouque de dinhêre pa burra.
A burra 'stava na loja. Diz a mulher pra ele:
- Ah! Qué ver com'é qu'os enganas, os compadres. Eles stã riques e tu és pabrezinhe! Eles têim o que quérim, porque sã spertes e tu és parvo! Com'é que'és capaz de os inganar?
-Inganames!
Tinha lá quate libras im casa, quate libras im ôr. Diz ele:
- Inganames! Agora, vê, mê'tas libras a comer à burra; a burra esta nôte sterca e as libras cáim mesturédas no strumes. Eles amanhã vêim aqui, 'stão a falar comigu' aqui e ê vô ali, sgravate no 'strume da burra e tire de lá 'ma libra. Depôs 'gravat'ôtra vez, 'tir' ôtra; sgravat'ôtra vez, tire ôtra.
'Sgravatô quatre vezes, terô quate libras. Diz:
- Esta burra é 'ma fortuna qu'aqui tenhe! Êlh'ò que cagô esta nôte! Caga dinhêr, caga libras im ôr!
Diz:
- Eh, compadre, daqui a pôque stás rique! Quante qués pa burra, compadre? Qués vander a burra?
- Ele nã. 'Tã, ond'é que vend' isto? Tã, hoje dêtô quate libras, amanhã dêta oite!
- Eh, compadre, a gente damos-te muite dinhêr pa burra!
- 'Tã vá! Dás-me vinte contos pa burra.
E os ôtros puxárim pa cartêra.
- Vá, toma lá.
A burra stava quase morta. Levárim.na prà loja deles, pra casa dels. Cand' era a passárim pò pé da burra:
- Isto quante más comer se le dêta, más grã, más palha, más libras dêta, más libras caga!
E pos jêtes, no ôtro dia, levárim na burra prà loja: botar de comer... Eles érim nos dôs muit' invejosos. Logue de manhã, sem'à roda da burra, ver quande a burra stercava pa dárim volta ò sterque.
- Ora, nã dêtô nada!
Fôrim lá a casa dele.
- Õ compadre! 'Tã, diz ca burra que fázi' àssim, que fazi' àssado, qu'onte dêtê quate libras, hoje dêtéva oite... Nã mes dêtê nada!
- É mintira! Vocês na sabedes tratar da burra. Tragam cá a burra, ôtra vez, qu'ê é que sê tratar dela; se quérim ver o qu'é que'ela aí traz amanhã. Amanhã de manhã vêim cá ver.
Ora, já tinha muite dinhêr cos ôtres le tinhim dade. Bota-le lá dez ô doze libras pa dente da barriga da burra.
Quande eles lá chegárim, no ôtro dia de manhã:
- Vamos lá ver!
Começô a sgravatar, eh, 'ma manchada de libras, 'ma manchada de denhêr pò bolse,
- Pxé!... É vocês que nã sábim tratar da burra. Más 'ma remessa de dinhêr. Agora já nã a vende. Tome lá o dinhêr, que me dérim e a burra fica cá na minha casa. Já nã a vend' ôtra vez.
Os ôtres:
- Oh! 'Tã, damos-te más corente contes pa burra.
Levárim ôtra vez a burra, lá pra casa deles.
- Fô vocês nã sabérim tratar dela.
- Oh! Amanhã vás lá tu tratar dela.
- Stá bem.
Nã aparcê lá, Tinha'àquel dinhêr no bolse, era rique, não aparcê lá. Eles fôrim lá despostes a matárim-no.
- Eh, compadre, tod'à manêra inganeste-mes. Atã, a burra na dêta dinhêr como dêtava!
- Ah, nã sê... Ela degenerô, já nã dêta más. 'Spérim aí um bocadinhe, qu'ê já venhe.
Ele demerô-s'um bocadinhe. A mulher tinha' ali dos coelhos ò funde das 'scadas. Diz pòs coelhes:
- Iste sã dôs criédes, qu'aqui tenhe. Vai lá chamar o snhô Joã.
- Eh! Que belos criédos, qu'aqui tenhe! Vã aviar todes os mandades. qu'ê quer; vã me chamar, onde qué qu'ê 'stô!
- Eh, compadre, que beles criédes, qu'aqui tens!
Já nã quérim saber da burra.
- 'Tã, qués vender os coelhos, compadre?
- Ê nã! Ond' é que hê-de vender isto? 'Tã, agora, and'além ò funde da horta, os coelhes vã-me chamar; tenh' um criédo, é preciso lá ir um criédo perder tempo pa m'ir busquér; e os coelhes vã, onde precse, nã le pague soldada nim le dô de comer, só le dêt'ervas!
Lá fezérim o negoce de dinhêr. Foi até pôque dinhêr, que le dérim. Os coelhes fôrim num grande bocade, vei um cã logue, comê-es. Féquérim sim coelhrs. Cand' ele lá chegô:
- Ah! 'Tã, os coelhes desaparecêrim!
- 'Tã, os coelhes na pódim ver cãs - os cãs cómim-nos logue; vocês dêxérim chegar o cã ò pé deles, comê-os logue!
Pronte, ali stevérim. Fequérim munte amigues. Almárim 'ma muça, lá im casa. Fôrim-se imbora.
- O nosse compadre Joã Ceguinhe vai ele 'stande rique e a gente pobre... Com' é que'ele arranjô aquil'?
E comecárim com eles:
- Ah! Dêxéste-vos inganar. Inganô-vos cos coelhos, inganô-vos com essas vidas todas; inda vos ingana com más côsas!
- Ah! Ond' é qu'ele mes ingana? Vames lá a casa, vâmesi-o lá matar! Vâmesi-o lá matar, o compadre!
Diz ele:
- Oh! Nã me mátim! Nã me mátim, desta menêra e de ôtra.... Tenhe pr'àí mas vidas, um dinhêr a receber... Ê dô-vos o dinhêr, que vocês mes dérim, vames a tal site...
Mas meérim no dente duma saca pa írim lá receber o dinhêr. Ele lá disse o site; levárim-no logue dente da saca. Chegárim a um certo site, passárim numa igreja. Ele lá vi pos buraquinhos da saca...
-Oh! 'Stá aqui 'ma igreja! Vã pa me matar, vã sequer rezar ali 'ma oração, ali àquel igreja, pa minha alma, qu'ê morre!
Passa ali um pastor cum rebanhe de borregues e ele 'stava lá agachéde, dente da saca. E o pastor diz co pé:
- 'Tã, que 'stá você aqui a fazer?
- Pxiu! Você cale-se! Você se qué sê munte rique, meta-se aqui nesta saca, qu'ê vô guardar os sês borregos. Esta saca tem aqui munte dinhêr.
Abri-l'a saca, botô a fugir da saca pra fora e agachô-se lá o pastor. Os compadres viérim de lá, assim lá da igreja, de rezar as orações por alma dele, qu'ia morrer; botárim o saco ôtra vez às costa, ala! Chegérim ò rebêr, que levava munta água - um ri a correr por i fora. Cheguérim. Catrapus! Aventárim no pastor lá pa dente da água,
- And' aí, que já morrestes. Agora, fica aí. Agora, vamos nós imbora pra casa.
Fôrim andande, andande, por esses côses fora. Incontrárim no compadre Joã Ceguinhe a guardar um rebanhe de borregues. Pôs-s'assim a olhér:
- Ah! Parece o nosse compare, qu'além and'à guardar os borregues.
- Oh! O nosse compadre! 'Tã aventâmesi-o, agora, pà rebêra. Já ond'é qu'ele vai cheguende? Vai cheguendo'ò mar, pa água abaxo.
- É ele, é ele! - assim um pò ôtro.
Fôrim ò pé dele.
- Eh, compadre, 'tã, andas aqui?
- 'Tã, pôs, nã hê-d'andar aqui? Vós sês parvos! Cada mergulhinhe que déva, agarrava um borregue; cada mergulhã que déva, agarrava um borregã; tenh« aqui esta remessa de borregues.
Deziim um prò ôtre:
- Eh! Vae lá nos também a guardar um rebanho, assim como ele.
Chega lá à ponte, catrapus! pa dente da água. E pronte.

Vitorino Cebolas Barreto

(conto recolhido por Cândida Baptista, 1967, in Contos Populares Portugueses)

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