quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Rascunho

Só uma vez não faz mal e quando o jeito é pouco ainda menos. Alma amiga pediu-me há uns tempos para lhe escrever um pequeno filme. Como o talento aqui é pouco, o trabalho custoso e o abutre americano só se aproxima na hora da morte, só ao fim de cinco meses é que consegui acabar um rascunho com dez ou onze páginas; claro está que, ao fazer todo aquele trabalho de alfaiate, de tradução, de formatação e ajuste, grande parte do arrazoado revelou-se imprestável. É precisamente isso que fica por aqui, com todos os erros, todo o mau ritmo, a mescla de inglês e português, a ausência das cenas finais, etc. Sempre gostei de me envergonhar. Tenho um bocadinho mais jeito para traduzir textos bons do que para escrever maus, mas, enfim.




Moderato

Um quarto amplo sem outra mobília que não uma cama grande, uma cadeira e uma mesa de cabeceira. Tudo é branco e preenchido de luz. Uma janela grande abre para o mar, para os penhascos, e para a orla da pequena cidade; podemos ver também um grupo de homens velhos, vestidos à turca a conversar, a tomar chá e a fumar sentados numa mesinha, na rua, por debaixo da grande janela. O dia está quente e o Sol fustiga os homens e os animais que passeiam nas ruas.
Um jovem contempla junto à janela do quarto todo este cenário. Cabelo rapado, magro, veste apenas uma bata branca sem mangas – está doente. Atento a tudo, esboça sorrisos quando olha para os homens velhos que, em baixo, vão falando cada vez mais alto.
Um médico entra no quarto. O silêncio perdura. Ignorando o sinal da proibição de fumar, acende um cigarro. Puxa a cadeira para si e senta-se.

Médico
Queres?

Jovem
Não... não que faça muita diferença... não... quanto tempo?

Médico
(Acende o cigarro. Fuma)

Não sei... uma hora... um dia... um par de semanas, de meses...

Jovem
(rindo)
 De anos... luas...

Médico
Este cigarro...

Jovem
Vais dizer-me todas as medições do tempo?
(olhando os velhos na rua)

Talvez eles saibam quanto tempo há ainda para mim...

Médico
Eles sabem muitas coisas.

Jovem
No outro dia cantavam sobre os povos de antigamente, que habitavam nas terras do Norte. Diziam que quando uma criança nascia, as mulheres choravam, os homens entoavam os cânticos mais tristes que conheciam, pois muitos sofrimentos aguardavam pela criança. Mas quando alguém morria, celebravam como o dia mais feliz da sua vida, porque era mais um, que, naquele momento, se tinha libertado da dor.

Médico
Só pelo sofrimento os deuses ensinam

Jovem
Mas abandonaram-nos e deixaram-nos sozinhos. E o que há para aprender, quando falta tão pouco para a lição terminar?

Médico
Sabes... eu também conheço as minhas histórias. Antes da última guerra eu fui pelas aldeias deste país, com um caderno e uma caneta, para apontar no papel as baladas, os mitos e as lendas que as mulheres e os homens mais velhos ainda cantavam naquele tempo. Em breve, queimei o caderno e lancei a caneta para o lixo. Quando colocamos as palavras no papel, estamos a matá-las, mas quando as cantamos, uma e outra vez, elas ficam gravadas no coração, batem contra eles, e tornam-se sangue do nosso sangue, carne da nossa carne. Os bardos não estão todos mortos. Uma das baladas que ouvia cantar pelas nossas aldeias, contava a história de um amor trágico. o noivo fora enfeitiçado por uma fada das montanhas e, alguns dias antes do casamento, essa fada ciumenta atirara-o do alto de um rochedo. No dia seguinte, uns pastores encontraram o corpo e, numa árvore, o chapéu. Trouxeram o corpo para a aldeia e a noiva aproximou-se: ao ver o noivo inanimado, entoou um lamento fúnebre cheio de alusões mitológicas, texto litúrgico de uma beleza rude. Enquanto registava as palavras, dei-me conta de que a história me era familiar, que algures, de outrém, tinha ouvido algo de semelhante. Procurei informar-me da época em que a tragédia ocorrera: disseram-me que era «muito antiga». Mas, na verdade, tinha ocorrido, um dos pastores contou-me, apenas há quarenta anos, e, o mais espantoso, descobri que a heroína da balada estava ainda viva. Fui visitá-la e ouvi a história da boca dela. Tratava-se, afinal, duma drama bastante vulgar: por descuido, o noivo escorregara num precipício, não tendo morrido imediatamente; os seus gritos foram ouvidos pelos montanheses, que o transportaram para a aldeia, onde veio a morrer pouco depois. No enterro, a noiva e as outras mulheres de aldeia repetiram as habituais lamentações rituais, sem fazer qualquer alusão às fadas das montanhas. Quando contei esta versão dos acontecimentos aos aldeãos que se tinham enamorado da história, responderam-me que a velha já tinha esquecido tudo, que o desgosto a tinha tornado quase louca. Era o mito que eles cantavam que falava a verdade, a história verdadeira não passava duma mentira.

Jovem
E tu em qual delas acreditas?

Médico
Acredito naquela que nunca morre.

Jovem
Uma vez, li esta pergunta: does our unquenchable desire for immortality spring, not from the fact that we are immortal, but from the fact that during the short span of our life we are in the service of something immortal?

Médico
Isso, meu jovem amigo, não te sei responder. Mas, descendo dos céus à terra, sei que ela está lá em baixo à tua espera.

Jovem
Ela quer subir?

Médico
Disse que ia tentar.

Jovem
Então seja: deixa-a subir.



Mosso

Um pequeno camarim de um obscuro clube nocturno. Uma mulher completamente nua, com o corpo pintado com as cores e formas de um leão olha-se diante de um enorme espelho. Um par de asas brancas dão-lhe o aspecto de uma figura mitológica: a Esfínge.
Sentado junto à porta do camarim, está um homem velho e cego.

Velho

Small blame that one  should for such a woman long time suffer woes; wondrously like is she to the immortal goddesses to look upon.

Esfínge

- Só a tua memória me pode ver, mas, ainda assim, a cegueira não te amargurou o coração. Vai e anuncia-me com a tua voz doce. Só a ti a beleza obedece.

O homem deixa o camarim, passa por entre portas e cortinas até chegar ao palco. A sala é iluminada por umas poucas velas no centro das mesas, onde não se encontra nenhum cliente, excepto um.

Velho

Para aqueles que o viram e triunfaram sobre o fim da noite, para aqueles que sabem demasiado, para os loucos, para aqueles que eram uma faca e então feriram, para aqueles que eram um magarefe e então mataram, para aqueles que eram um coração e e então amaram: a Esfínge.

Ela entra e canta, num tempo lento e triste, duas estrofes de um poeta grego, Cavafy. No começo da segunda estrofe, abandona o palco e vai-se sentar, nunca parando de cantar, na única mesa que está ocupada naquela noite.

Esfínge

One candle is enough. Its gentle light
Will be more suitable, will be more gracious
When the Shades arrive, the Shades of Love.

One candle is enough. Tonight the room
Should not have too much light. In deep reverie,
All receptiveness, and with the gentle light—
In this deep reverie I will form visions
To call up the Shades, the Shades of Love.

O jovem na mesa é aquele que vimos no quarto da clínic. Tem ainda o aspecto de quem  não foi tomado pela doença. Tanto ele como a Esfínge olham com ternura para o outro, sorriem,  falam como dois namorados que trocam murmúrios nos lençóis.



Esfínge

Que animal de manhã caminha em quatro patas, de tarde em duas, e à noite anda com três?

Jovem

No princípio era a Palavra, não o enigma.

Esfínge

O enigma estava no meu canto

Jovem

Estava dentro de ti.

Esfínge

Mas os homens não o conheceram.

Jovem

Conheço as palavras, mas não a solução. Sou ainda teu escravo.

Esfínge

A vida, como o Sol, vai de casa em casa, até se afundar no horizonte. E os homens são como estações do ano:  uns, como a Primavera, são recomeço e esperança; são uma brisa fresca que passa pelo rosto de quem colhe as primeiras flores. Outros há que ardem como o Sol do meio-dia num dia de Verão, demasiado quentes e flamejantes; altos, altivos, pegam fogo à terra, aos corpos, e o seu calor invade a noite. Há aqueles que guardam desse calor e dessa luz apenas uma réstia e nos seus olhos aparece aquela cor alaranja dos finais de dia do Outono, em que o Sol parece banhado em sangue e vinho. Esses possuem a luz, mas não a alegria. Mas há ainda os outros, os que dentro de si trazem apenas o Inverno: desolação, fuga e morte. Os seus caminhos são perigosos, chove demasiado neles; as suas paisagens são estéreis, os elementos perderam o equílibrio: o ar demasiado frio, as águas violentas e revoltas, o fogo fraco e fátuo, a terra ensopada e morta.

Jovem

Mas os poetas dizem que, quando o grande rei te respondeu «homem!», te lançaste em desespero pelos penhascos abaixo.

Esfínge

Os poetas mentem demasiado.



Cantabile

A porta do quarto abre lentamente. Uma figura feminina revela-se: é a Esfínge, mas agora como mulher, com cabelos pretos que se estendem pelas costas, um vestido, também preto, comprido. Sem mais. Os pés nus, níveos, sem qualquer pintura nas unhas, avançam lentos, em linha recta, como que em passos de tango, largos, decididos, mas sem erotismo ou sensualidade. Detém-se, exactamente, no centro do quarto. O médico senta-se de costas voltadas para eles e retira da pequena mesa aquilo que parece ser uma partitura. No topo da página pode ler-se: Cantabile. O jovem doente continua junto à janela, sem nunca se voltar para ver o rosto da Esfínge; vê-o no reflexo do enorme vidro. Tacteia-o, percorre-o com os dedos, aproxima o rosto, olha o reflexo com um imenso amor e com uma imensa tristeza. O Sol está alto, mas o quarto sombrio. Iluminados só o rosto dos que estão de pé.

Jovem

Deus... ouvi no Oriente que Deus é como a janela de uma casa... os homens erguem as paredes, talham as portas, protegendo-se, fechando-se... mas deixa nelas um espaço intocado por onde entra a luz que a tudo ilumina

Esfinge

 E é pelas frestas que a tormenta transpõe os seus lares...

Jovem

... e ouvi que Deus era como o centro da circunferência: um ponto ínfimo, irrelevante. Porém, é nele que se apoia o compasso que desenha o arco e cada uma das lascas de grafite se mantém à mesma distância d’Ele...

Esfinge

O compasso quebra e as duas extremidades, uma fixa, a outra livre, separam-se e não se encontrarão...




Jovem

᾿Εν κύκλῳ ἴσον ἀπέχειν ἀπὸ τοῦ κέντρου εὐθεῖαι  λέγονται, ὅταν αἱ ἀπὸ τοῦ κέντρου ἐπ᾿ αὐτὰς κάθετοι ἀγόμεναι ἴσαι ὦσιν.

Esfinge

Circles said to touch one another are any which, meeting one another, do not cut one another.

Jovem

Por ti, viajei em navios de carga e atravessei o Atlântico e o Pacífico, para saber se nos portos as putas esperam pelos navios; mas os homens do mar só me falaram das sereias e do dia em que um caminhou sobre as águas; entrei em comboios nocturnos que iam para Norte e para Leste, só que os agulheiros dormiam e todas as estações anunciavam o teu nome. E assim abandonei as carruagens quando passávamos junto das montanhas, e, olhando para o cume, disse: eu vencerei. Então ascendi e cheguei ao cimo. Mas no momento em que ia gritar, Vitória!, exausto, trémulo, desesperado, o rosto da montanha transformou-se, a águia e a serpente recolheram-se nos abrigos, e os seixos que pisava soavam como os estalidos dos teus lábios, e o chuvisco tinha o sabor do teu suor quando eu triunfava sobre o teu corpo, e os trilhos da estepe diziam ser irmãos das tuas cicatrizes de infância. Tinha sido derrotado. Então desci para a cidade dos homens e sentei-me à mesa com mentirosos, para ouvir falar de ti; confessei-me a traidores na esperança de que me entregassem ao Centurião e Roma me julgasse;  e aprendi com sábios que ensinavam que todo o movimento é ilusão; mas um dia um deles morreu e os outros levantaram-se e foram embora. Fiquei sozinho. Guardava uma fotografia de ti, quase nua, estendida naquela praia desconhecida onde um dia me levaste. Não me lembrava da hora que o relógio marcava e tive medo que também a fotografia morresse. Com muita pressa corri para os artistas e mostrei-lhes o teu retrato e ordenei-lhes: gerai a eternidade! Um desenhou uma terrível tormenta nos mares, naufrágios, návios em chamas, homens afogados e disse: o princípio da vida é a água. Ela é o grande oceano.

Esfinge

Perguntei aos doutores da lei se tinham apontado as coisas dos deuses e dos tesouros do coração que me dizias para que eu adormecesse no teu peito...

Jovem

Outro desenhou um grande incêndio que devorava toda a terra e consumia os campos, os animais e toda a vida na terra, e disse-me: a origem da vida é o fogo. Ela é o grande incêndio que não tem começo nem fim.

Esfinge

Falei aos músicos, para que tocassem para mim as mesmas canções que tu me davas a ouvir, quando me dizias: no princípio era o Som...

Jovem

Mas um, quando viu o teu retrato, contraíu-se em dor; e não soltou uma única palavra até ao anoitecer. Aí, tomou a minha mão e disse-me: vem. Caminhámos durante horas, até que chegamos, por fim, a um promontório, de onde não conseguíamos ver absolutamente nada. E então disse-me: um tal lugar assim, este horizonte, onde o mar toca o céu, e onde hoje não consegues distinguir a luz de um navio que passa, ou ver o reflexo dos astros luminosos... foi o lugar assim que viu aquele que escreveu: e havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a face das águas. E Deus disse: faça-se luz! E houve luz...

Esfinge

Procurei em livros velhos as moradas e as gravuras daquela casa que um dia prometeste que habitaríamos, nos lugares altos, onde o nosso coração morava...

Jovem

E disse-me: ela é a face do abismo; ela é a face das águas. Ela é o mundo dividido pela luz de Deus. Ela é a luz que brilha no rosto de Deus.

Esfinge

E quando procurava a tua casa, uma mão tocou-me, uma mão fria de mulher. E sem deixar que me voltasse para lhe ver o rosto, murmurou ao meu ouvido: com quem quer que fales, onde quer que procures, só a mim encontrarás. E não disse mais.

Jovem

E então voltei para casa, mas não entrei nela. Esperei por ti nos portões, pois não podia ir sozinho.

Esfinge

(O vestido dela cai e começam a reaparecer as pinturas no corpo, como se tivessem vida própria. E ela, agora, canta)

Por ti, tinha posto três sentinelas
Tinha o Sol na montanha e a águia nos campos
E o vento frio do norte eu tinha nos navios.
Mas o Sol caiu e a águia adormeceu
E o vento frio do norte foi levado pelos navios
E assim foi dado tempo à morte e ela levou-te

Jovem

Não havia muita luz e eu estava sozinho...

Esfinge

O Sol morre, as estrelas morrem, as flores morrem, os animais morrem...

Jovem

  À tua espera, à espera que as luzes do teu automóvel rasgassem as trevas, mas sempre era outro alguém que chegava, um vizinho que tornava a casa, um estranho que se enganava no caminho, e consumi a minha vida, cigarro atrás de cigarro, cansaço atrás de cansaço, à espera que regressasses a casa...

Esfinge

Tu morres.

Jovem

E eras tu a minha casa.

Esfinge

 E tu eras o meu nome.

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