quinta-feira, 13 de abril de 2017

O dever supremo do homem livre

A dupla substância de Cristo foi sempre, para mim, um mistério profundo e impenetrável: o desejo apaixonado dos homens, tão humano, tão sobre-humano, de chegar até Deus - ou, mais exactamente, de voltar a Deus e de se identificarem com Ele. Essa nostalgia, umas vezes tão misteriosa, outras tão real, abriu em mim feridas, grandes feridas.
Desde a juventude que a minha maior angústia, a fonte de todas as minhas alegrias e amarguras, tem sido esta: a luta incessante e impiedosa entre a carne e o espírito.
Dentro de mim, as forças tenebrosas do Demónio, antiquíssimas, tão velhas e mais velhas que o homem; dentro de mim, as forças luminosas de Deus, antiquíssimas, também elas tão velhas e mais velhas que o homem. E a minha alma era campo de batalha onde se afrontavam estes dois exércitos.
Era uma profunda angústia. Amava o meu corpo e não queria vê-lo perder-se; amava a minha alma e não queria vê-la aviltar-se. Lutava por reconciliar as duas forças cósmicas, antagónicas, para lhes fazer sentir que não eram inimigas, que estavam, pelo contrário, associadas, e por fazê-las fruir, e fruir eu próprio com elas, da sua harmonia.
Todo o homem é um homem-Deus, carne e espírito. Eis porque o mistério de Cristo não é, somente, o mistério de um culto particular mas diz respeito a todos os homens. Em cada homem explode a luta de Deus e do homem, inseparável dos seus desejos ansiosos de reconciliação. Na maior parte das vezes, esta luta é inconsciente e dura pouco, uma alma fraca não tem força para resistir por muito tempo à carne; desanima, transforma-se em carne ela própria e a luta acaba. Mas, nos homens responsáveis, que mantém, dia e noite, os olhos fixos no dever supremo, a luta entre a carne e o espírito trava-se sem piedade e pode durar até à morte.
Quanto mais fortes são a alma e a carne, mais fecunda é a luta e mais rica a harmonia final. Deus não ama as almas frágeis e as carnes sem consistência. O espírito pretende lutar com uma carne poderosa, plena de resistência. Ave carnívora que nunca deixa de ter fome, que devora a carne e a faz desaparecer, assimilando-a.
Luta entre carne e espírito, rebelião e resistência, reconciliação e submissão, e, por fim, o objectivo supremo da luta, a união com Deus - eis o caminho ascendente que tomou Cristo, e que Ele nos convida a tomarmos, por nossa vez, seguindo os traços sangrentos dos seus passos.
Como chegarmos, nós também, a esse cume supremo onde, filho primogénito da salvação, chegou Cristo? - eis o mais alto dever do homem que luta.
É preciso, portanto, para podermos segui-lo, que tenhamos um conhecimento profundo da sua luta, que vivamos a sua angústia - que saibamos como ele venceu as armadilhas floridas da terra, como sacrificou as pequenas e grandes alegrias do homem e como ascendeu, de sacrifício em sacrifício, de feito em feito, até ao cimo das suas provações, a Cruz.
Nunca segui com tanto terror a sua marcha sangrenta até ao Gólgota, nunca vivi com uma tão grande intensidade, com tanta compreensão e amor, a Vida e a Paixão de Cristo, como durante os dias e noites em que escrevi A Última Tentação. Ao escrever esta confissão da angústia e da grande esperança dos homens, sentia-me tão emocionado que os meus olhos se embaciavam de lágrimas. Nunca, até então, sentira, com tal doçura, com tal sofrimento, o sangue de Cristo tombar, gota a gota, no meu coração.
Porque Cristo, para subir ao alto do sacrifício, para subir à Cruz, ao cimo da materialidade, a Deus, passou por todas as provas do homem que luta. Todas, e é por isso que o seu sofrimento nos é tão familiar, é por isso que sofremos com ele, é por isso que a sua vitória final nos parece a nossa vitória futura. Tudo o que Cristo tinha de profundamente humano nos ajuda a compreendê-l'O, a amar e a seguir a sua Paixão, como se fosse a nossa. Se não houvesse Nele o calor deste elemento humano, nunca poderia ter tocado os nossos corações, tão profunda e suavemente, nunca poderia ter-se tornado um modelo para as nossas vidas. Lutamos, vemo-l'O lutar como nós e tomamos coragem. Compreendemos que não estamos sós no Mundo e que Ele luta ao nosso lado
Cada momento da vida de Cristo é uma luta e uma vitória. Ele triunfou do irresistível encanto das simples alegrias humanas, ele triunfou da tentação; transformou, sem cessar, a carne em espírito, e prosseguiu a sua ascensão; chegou ao alto do Gólgota e subiu à Cruz.
Mas o seu combate não acabou ali; na Cruz esperava-O outra tentação, a Última Tentação. Num clarão rápido, o espírito do Mal colocou perante os olhos desfalecidos do Crucificado a visão pérfida de uma vida pacífica e feliz: enveredara - foi a ilusão que teve - pelo caminho uniforme e fácil do homem, casara, tivera filhos, os homens amavam-n'O e estimavam-n'O; e agora, já velho, estava sentado em frente da sua casa, lembrando-se das paixões da juventude e sorrindo, satisfeito. Como procedera bem! Que sensatez, a de ter seguido o caminho dos homens, e que loucura, se tivesse querido salvar o Mundo! Que alegria, o ter escapado aos sofrimentos, ao martírio e à Cruz! 
Foi esta a última tentação que, pelo espaço de um relâmpago, perturbou os derradeiros instantes do Salvador.
Mas, bruscamente, Jesus sacudiu a cabeça, abriu os olhos e viu claro: não, não, não tinha traído, louvado seja Deus, não havia desertado, tinha cumprido a missão que Deus lhe confiara, não se casara, não vivera feliz, chegara ao cimo do sacrifício e estava pregado na Cruz.
Fechou os olhos, satisfeito. Então, ouviu-se o grito triunfal: Tudo se cumpriu!
Sim, cumpri o meu dever, fui crucificado, não cedi à tentação.
Foi para dar um exemplo supremo ao homem que luta, para lhe mostrar que não deve recear o sofrimento, a tentação e a morte, porque tudo isso pode ser vencido e foi já vencido, que este livro foi escrito. Cristo sofreu e, após o seu sofrimento, foi santificado; a tentação lutou, até ao último instante, por conseguir vencê-l'O, e a tentação foi vencida; Cristo foi crucificado e, então, também a morte foi vencida.
Cada obstáculo à sua marcha tornou-se ocasião e medida de uma vitória. Temos, agora, um exemplo perante nós, que nos abre o caminho e nos dá coragem.
Este livro não é uma biografia, é a confissão de um homem que luta. Publicando-o, cumpro o meu dever.
O dever de um homem que se bateu muitas vezes, que, durante a sua vida, foi muitas vezes atormentado e teve muita esperança. Estou certo de que todo o homem livre, ao ler este livro cheio de amor, amará Cristo mais do que nunca, melhor do que nunca.

Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo

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