terça-feira, 9 de maio de 2017

Heróide I - Uma primeira leitura

Haec tua Penelope lento tibit mittit, Ulixe;… escreve a raínha de Itáca uma epístola como aquela que Aretusa remetia para o seu Licotas (Prop. IV. 3), o soldado que percorria as rotas do oriente, que alcançava as águas de Leste, o solo dos Partos, os montes da Cítia, os mares e os gelos e os ventos ora favoráveis, ora desfavoráveis ao povo da Itália. Só o corpo da mulher não era permeado pelo êxtase do gládio.  E Aretusa sofria e, assim, também Penélope sofre.
                Sabemos bem como as palavras eram importantes: a sua ordem, o seu peso e significado, a sua ambiguidade. Tua Penelope lento... ela, Penélope, só a Ulisses pertence - o modelo de fidelidade homérica permanece ainda intacto na elegia latina. Só Ulisses se transformou: não é o homem astuto que tanto vagueou, que destruiu a cidadela sagrada de Troía, que observou muitas cidades e conheceu muitos homens; não é o protegido da deusa Atena, que o envelhece e renova, conforme a sua vontade, nem o amante da ninfa, da feiticeira, nem o homem que desperta no lindo rosto de Nausícaa os primeiros latejos eróticos. Para Penélope, ele é lentus... Ulixes. A tradução portuguesa verte lentus como vagaroso e, de facto, qualquer dicionário nos indica que esse é um dos significados do adjectivo. Porém, estamos dentro da elegia, que não só possui uma métrica própria, ou uma temática ou estrutura única, como também um vocabulário de uma subtileza particular; lentus não é apenas aquele que se demora, que vai ou chega devagar, mas, essencialmente, marca o que está extinto, o que é indiferente, insensível ou vazio. Assim em Propércio:

A pereat, si quis lentus amare potest! (1.6.12) ,

em Tibulo:

Eheu quam Marathus lento me torquet amore! (1.4.81),

E também já nos Amores,

ille habet et silices et vivum in pectore ferrum,
qui tenero lacrimas lentus in ore videt. (3.6.59-60)

Então, o Ulisses da primeira Heróide é o amante insensível, o marido frio, distante, sem fulgor ou ânsia de regressar para junto da mulher. É isso que ela lhe pede: Nil mihi rescribas a    ttinet: ipse veni!  A leitura da Odisseia tenta-nos a uma interpretação imediata. Penélope não quer que Ulisses lhe escreva, pois ele é demasiado hábil com as palavras e até a uma deusa mentiria, enfim, só a presença dele revelará alguma coisa de verdadeiro. Essa interpretação, porém, ignora o desejo exprimido no imperativo, embora não totalmente desvelado à primeira leitura. Não é da mentira que ela tem medo; é a ausência de Ulisses que a fustiga, envelhece e extingue. Ele tem de voltar em pessoa, para que também ela deixa aquele estado letárgico e choroso dum amor há tanto tempo por consumar. Para o poeta elegíaco, Ulisses é, aqui, o exemplo do mau amante, do homem lento e moroso que deixa a mulher por tomar. O jovem elegíaco tem muita pressa de amar. É num ritmo de erotismo, censura e lamento que Penélope prosseguirá a sua epístola.
                Mesmo quem nunca leu a Ilíada saberá qual a causa da guerra entre Aqueus e Troianos: uma mulher, filha de Zeus, e duma beleza tão extraordinária, a quem nem os regentes e anciãos troianos poderiam censurar como motivo para tão longa guerra:

οὐ νέμεσις Τρῶας καὶ ἐϋκνήμιδας Ἀχαιοὺς
τοιῇδ᾽ ἀμφὶ γυναικὶ πολὺν χρόνον ἄλγεα πάσχειν:
αἰνῶς ἀθανάτῃσι θεῇς εἰς ὦπα ἔοικεν. 

(Il. III, 156-159)

Os seres demasiado belos têm sempre em si o sabor da morte e da solidão. Páris, esse insanis adulter, provou dos prazeres da loucura de Eros, mesmo em pleno combate – não encontramos já em Homero, bem vivos, os laços entre a guerra e o amor, entre o homicídio e o sexo? – e, agora, Penélope luta contra o abandono que a guerra de Tróia trouxe às jovens dos Dánaos. Ovídio mantém o controlo absoluto do estilo, para roubar a expressão a Ezra Pound, e mantém-nos, a nós, dentro do vocabulário e da sexualidade latente da elegia. À recordação do adultério de Alexandre segue-se, quase como num jogo de antíteses, o reflexo da fidelidade de Penélope e de como o mundo natural e doméstico se moldam à sua desolação: deserto lecto, tardos dies, spatiosam noctem, pendulas manus – imagens da mulher frigida, que no léxico elegíaco não significa somente fria ou gelada, mas sim sexualmente incompleta, que dá a Penélope todo o significado da ausência de Ulisses, que não lhe preencha o tálamo sagrado,  lhe apresse os dias na modesta Ítaca, que mostra Penélope sem o Rei que a tome e faça a noite parecer tão curta, sem a carne, a pele e o sangue que a fazem um pouco mais viva, um pouco mais quente. Sozinha, nas mãos pode apenas atar um fio de mentiras (Od. XIX. 137) Sozinha, tem medo e sonhos.
                No canto XIX da Odisseia, Penélope pede a Ulisses, ou, melhor dizendo, a um estrangeiro dela desconhecido, que interprete um dos seus sonhos (XIX. 535), para, depois da resposta evasiva do estranho, mostrar que os sonhos são impossíveis e confusos, que uns são nocivos e falsos, outros verdadeiros e bondosos (XIX. 560-567); a razão para isso é que uns passam por portões de marfim, outros por portões de ouro. Para um grego, o que não habitasse nas regiões da consciência, seria, necessariamente, exterior ao homem e pertença dos deuses. Também Agamémnon experimentou a traição dos deuses pelo sonho. Porém, na Heróide I, Penélope sonha com a angústia e o medo que assoberbam o amor (v. 11), sonha com os violentos Troas que, no lugar dela, sobre Ulisses haveriam de cair. Mais importante de notar é que é de si que parte o sonho – quase que se podem escutar aqui os versos de Lucrécio, como um rumor de passarinhada alegre e jovem sobre a nova poesia de Ovídio:
~
Et quo quisque fere studio deuinctus adhaeret
Aut quibus in rebus multum sumus ante morati
Arque in ea ratione fuit contenta magis mens,
In somnis eadem plerumque uidemur obire.

                Ovídio vai um pouco mais longe do que Lucrécio. Não é só aquilo com que o espírito se alegre que vem ao nosso encontro em sonhos; é, acima de tudo, naquilo em que o espírito encontra a sua plenitude, no lugar onde a sua verdadeira natureza se revela e preenche, é para aí que tende o sonho, mesmo que, como Penélope, não se encontre lá a alegria ou a felicidade imediata. Ao Amor pertencem também os territórios da tristeza, os espaços solitários, as horas vazias, as extensões, por vezes infindas, do medo e da angústia. No pectus amantis de Penélope não mora só Ulisses; encontram-se por todos os inimigos do amado, esses cuja mera invocação do nome é suficiente para lhe tornar o rosto pálido (v,14).
                Mas, por agora, os sonhos da guerra terminaram, das cinzas de troia Argolici rediere duces e é este o momento de Ovídio conduzir Penélope a uma viagem pelas emoções que se ocultam na contemplação distante da alegria dos outros. Ela vê os altares que fumegam, as jovens que ofertam dádivas aos deuses, os guerreiros que cantam, tudo isto sob o olhar admirado de velhos cansados e mulheres ainda temerosas (vv. 28-30) Quão distante está ela do mundo. Sem vítimas nem presentes para oferecer aos deuses, afasta-se dos desígnos celestes e dos benfeitores dos homens; na sua casa, o silêncio contrasta com a algazarra do exterior; a ela, nenhum velho admira, enquanto o temor impróprio das mulheres em nada se pode comparar com o dela, tão real e tão penoso. O seu coração não terá ainda sossego:

atque aliquis posita monstrat fera proelia mensa,
Pingit et exiguo Pergama tota mero.

Para compreendermos na sua totalidade o desespero de Penélope diante desta visão, um outro vislumbre da sua frustração erótica, teremos de ler uma outra epístola, ironicamente, a de Helena a Páris. Apenas dois versos:

Orbe quoque in mensae legi sub nomine nostro,
Quod deducta mero littera fecit, amo.

Como é tudo tão diferente para Penélope. O vinho, que transporta os sinais secretos dos amantes, as palavras secretas e expressivas da paixão (Amores, 1.4.18-20), a ela traz os mapas da guerra, a corrente do Simoente, o palácio de Príamo, as tendas dos Heróis, a tenda de Ulisses... todo o mapa da sua desunião com o marido; o vinho deu a Helena uma promessa de amor sensual, a ela, a cor rubra na mesa só reafirmou os traços do afastamento, e dá-lhe notícias que ela já conhece (vv.37-38). O filho também já lhe tinha contado de Reso e de Dólon, de cuja autenticidade os filólogos da antiguidade já desconfiavam. Mas quem se preocupa com o genuíno, quando se trata de construir uma espécie de identidade nacional? O episódio da Doloneia serviu para os poetas latinos mancharem a aura divina dos heróis aqueus, no tempo em que procuravam as raízes de Roma nos heróis troianos. Era quase inevitável que Ovídio fizesse eco de Virgílio: no templo que Dido dedicava a Juno, Eneias pôde ver as tendas de panejamentos brancos de Reso, atraiçoadas pelo primeiro sono, que o sanguinário filho de Tideu devastava com uma grande carnificina (Eneida, I. 469-471). Na Heróide, Penélope, hipnotizada pelo amor, reclama para o seu herói os méritos da chacina e da vitória nocturna, e atribui ao triunfo de Ulisses o mais simples dos motivos: At bene cautus eras et memor ante mei! É o momento em que o herói homérico, ansioso pelo combate, se encontra com a heroína de Ovídio, sedenta, também ela, de confronto e de lutas nocturnas,  os mil artifícios de Ulisses se inspiram pelo amor sem limites de Penélope, e a noite que foge e apressa o filho de Laertes  (παροίχωκεν δὲ πλέων νὺξ τῶν δύο μοιράων, τριτάτη δ᾽ ἔτι μοῖρα λέλειπται) encontra-se com a noite da Arte de Amar, em que Penélope pode disfarçar a as suas imperfeições e sentir-se amante e bela antes do amanhecer:

Nocte latent mendae, vitioque ignoscitur omni,
Horaque formosam quamlibet illa facit.

(249-250)


                Mas, de imediato, a mente de Penélope clareia, e uma outra metáfora surge-nos. Ulisses escapou ileso, é verdade, mas de que lhe vale isso se, afinal, uni mihi Pergama restant? O tempo só passa para os outros; é o trigo, e não homens, que é ceifado pela foice (v.53), e o sangue dos guerreiros frígios fecundou a terra, que agora desabrocha, os ossos dos mortos são esmagados pelos arados e a erva esconde as ruínas da guerra (v.54-55). A natureza renova-se e a vida prossegue o seu curso indiferente à técnica e a civilização dos homens; mas para ela nada mudou, Pérgamo permanece em si, só nela, como se ela própria se tivesse tornado numa cidade de altas muralhas, que espera pelo soldado que lhe porá cerco, ou pelo assédio do amante aos seus portais implacáveis (Amores. 9. 19-20); um e outro, soldado e amante, são o mesmo. Ulisses triunfa ausente (v.57) sobre ela, a quem nada mais resta do que escrever cartas e indagar a todos os que aportam à sua cidade sobre o paradeiro do vencedor amoroso. A dúvida apoderou-se dela:

Quas habitas terras, aut ubi lentus abes?

Que terras o poderiam fazer demorar-se tanto nesse estado desprovido de paixão, que lugares poderiam tê-lo feito esquecer-se dos incêndios que o aguardam em Ítaca? Porquê tão lentus ainda? Tamanha é a força da incerteza, que acaba, por fim, por ser levada ao desejo insensato de que a guerra ainda prosseguisse (v.66), pois desconhece até do que há-de ter medo, e com o medo vem a angústia (v.72). Neste momento, pressente-se um jogo irónico entre Ovídio e os leitores e ouvintes da epístola de Penélope; pois o poeta fará com que a raínha de Ítaca escreva uma história que sabemos não ser a de Ulisses, levando aqueles que lêem ou escutem os versos a interpelar a esposa abandonada.
                Começa por reforçar os seus sentimentos de desconfiança (suspicor) e de demora (mora), acusa Ulisses de só desejar o perigos do mar e da terra (Haec ego dum stulte metuo, quae vestra libido est) – algo que o poeta elegíaco censura - e desvela o seu mais profundo temor:

Esse peregrino captus amore potes.
Forsitan et narres, quam sit tibi rustica coniunx,
Quae tantum lanas non sinat esse rudes.

Foi Vladimir Nabokov quem ensinou que a Literatura não nasceu quando um rapaz gritou «Lobo! Lobo!» e saiu a gritar do vale de Neanderthal com um grande lobo atrás de si – a literatura nasceu quando um rapaz apareceu a gritar «Lobo! Lobo!» e não havia lobo nenhum a persegui-lo[1]. Penélope grita «Lobo! Lobo!», mas os leitores de Homero, como o eram Ovídio e os poetas latinos, sabem que não há lobo nenhum. Não ouvimos nós o canto V da Odisseia?

πότνα θεά, μή μοι τόδε χώεο: οἶδα καὶ αὐτὸς
πάντα μάλ᾽, οὕνεκα σεῖο περίφρων Πηνελόπεια
εἶδος ἀκιδνοτέρη μέγεθός τ᾽ εἰσάντα ἰδέσθαι:
ἡ μὲν γὰρ βροτός ἐστι, σὺ δ᾽ ἀθάνατος καὶ ἀγήρως.
ἀλλὰ καὶ ὣς ἐθέλω καὶ ἐέλδομαι ἤματα πάντα
οἴκαδέ τ᾽ ἐλθέμεναι καὶ νόστιμον ἦμαρ ἰδέσθαι.
(215-221)

Quem não será tomado dum pouco de entusiasmo e de enlevo e não tenha em si também o desejo de dizer Penélope que nada há a temer, que Ulisses não ficou prisioneiro de nenhum amor estrangeiro, e que nada mais deseja do que regressar a casa? Não é este o género de fruição ingénua que Ovídio pretende despertar em quem escuta ou lê?
                Depois de tanta dúvida e de tanto tormento, e depois dum verso em que confessa que o próprio pai a deseja expulsar daquele viduo lecto, a reafirmação da pertença:
Penelope coniunx semper Ulixis ero

Ao dizê-lo, leva-nos para Ítaca, onde a turpiter absens de Ulisses – o poeta elegíaco não consegue, de facto, perdoá-lo – é causa de desordem política e familiar. As mãos de Eurímaco e de Antínoo, ao contrário das de Penélope, são avidas; Iro e Melântio provocam a vergonha e o prejuízo do palácio real, e as três criaturas indefesas, Penélope, Telémaco e Laertes estão à mercê da maldade de muitos. Abandonamos aqui, por momentos, ou talvez definitivamente, os espelhos eróticos da epístola. Os últimos versos podem ter uma outra leitura – não nos esqueçamos que, apesar de tudo, estamos na época de Augusto. A Ítaca que Penélope descreve em nada difere da de Homero, mas não será certamente por acaso que, numa carta de cariz amoroso e, por vezes, lascivo, se convoquem os nomes do antepassado e do descendente de Ulisses. Laertes é um senex sem préstimo para as armas (e para o amor) e não é capaz de exercer o mando. Com Telémaco virá uma época de mais valentia, e, roga aos deuses, o restabelecimento da ordem natural das coisas, em que o Pai instrui o filho nas artes que domina, e o filho, chegado o tempo, fecha os olhos dos progenitores; mas, para que a ordem seja restaurada, Ulisses tem de regressar. A súplica do segundo verso repete-se, dum outro modo:

Tu citius venias, portus et ara tuis!

                 Há ainda um último vislumbre amoroso na epístola de Penélope. Afinal, o tempo passa também para Penélope. A tardança, a lentidão e as paisagens interiores imutáveis são uma ilusão do sofrimento. O destino é inexorável e os dias avançam e com eles marcha o seu rosto e o seu corpo para a velhice e o desdém. As amantes elegíacas são jovens, belas, perfumadas... Ulisses tem de regressar; talvez por não ser apenas o esteio político de Ítaca, mas, acima disso, muito acima disso, para que Penélope lhe possa ainda mostrar o pouco da juventude que lhe resta, e se possa sentir, uma vez mais, uma mulher amada, absolutamente amada.

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