sexta-feira, 5 de maio de 2017

O Messias



Muitas vezes, o único inimigo de um homem é o seu passado, e Octaviano viu-se numa dessas circunstâncias em que o último dos seus inimigos ainda de pé era a memória do tempo antes de Áccio[1]. O Forum Romano, pejado de estátuas do vencedor da decisiva batalha[2], era o lugar onde as recordações dos assassinios e impiedades[3] do herdeiro de César poderiam ainda viver em conjunto com a visão inconveniente de que a última guerra tinha sido, na realidade, uma guerra civil dirigida contra Marco António e não uma conduzida contra um poder estrangeiro.[4] Mais do que isso, as representações do homem triunfante poderiam dar a alguns a ideia de que o Príncipe não era mais do que mais um comum e vulgar mortal apanhado nas teias da hybris, ou, pior do que isso, de que se comportava como o seu pai, que aquelas imagens de glória serviam, unicamente, para lembrar os restantes de quem é que ali mandava. Octaviano sabia bem o tipo de saudação que no Senado aguardava pelo homem que sequer sonhasse ser rei em Roma[5] e não havia nenhuma razão para que um jovem dono de uma fortuna inimaginável, uma ambição desmesurada de poder[6] e um supremo e natural talento para a teatralidade[7] não conseguisse, sem grandes problemas, escapar aos inconvenientes de ser assassinado. Assim, nesta ocasião, todas as suas esculturas de prata foram derretidas[8], no que lhe serviu não só para se livrar de umas estátuas de onde derramavam gestos autoritários que não se enquadravam nem no seu novo estilo nem na sua nova imagem[9], como também para dar, mais uma vez, mostra da sua pietas, ao depositar como oferenda, no templo de Apolo, o montante resultado em ouro da dissolução das estátuas[10]. Nunca houve homem tão próximo dos deuses[11] como Augusto[12]. Assim como as suas res non gestae[13], a recusa de cargos e ofícios conferidos contra os costumes ancestrais[14], representam o Príncipe como o bastião inviolável dos princípios republicanos[15], a sua eleição para o ofício de pontifex maximus em 12. a.C (habilmente combinado com a sua posição de pater familias) fê-lo guardião da religião Romana[16], uma espécie de guia e líder espiritual da pátria. Augusto não seria nunca um monarca, mas o Salvador, o Messias romano que veio ao Mundo para o dominar[17], guiar, e salvar por meio dele[18].
Em linguagem messiânica, ele era a luz[19], o caminho[20] e a República[21]. O primeiro dos homens[22], o único acima dos homens[23], a própria invocação do nome do Príncipe é nomear a Santidade[24] e o transcendente[25]. O Senado, por lei, afirmou-o sacrossanto para sempre[26], o que significava que um toque em Augusto era um assalto à própria República, decretou que de quatro em quatro anos os cônsules e os sacerdotes fizessem votos pela saúde[27] do Príncipe, e por toda a parte os cidadãos do império fizeram, sem cessar, sacrifícios[28] pela sua saúde em todos os templos. Era como se da vida do Imperador dependesse não só o destino da República[29] como também a própria ordem da Natureza se mantinha pela benevolência do Imperador. Seja qual for o nome que encontremos para a nova ordem política – ditadura, monarquia, principado[30] -, quer consideremos o programa cultural de Augusto como propaganda política, como pompa e circunstância do poder efectivo da casa de Augusto ou glorificação pessoal, encontramos neles sempre a mesma e única coisa: o príncipe, os seus símbolos[31] e a santidade da família real que era a única garantia da paz e da segurança do Estado[32]. Ele tinha trazido a paz ao mundo[33], tinha feito regressar os velhos deuses e cultos à cidade[34], como se ele mesmo fosse uma espécie de ponto de convergência entre o passado mítico e o desejo colectivo de um futuro utópico[35]. Para isso, não necessitava ocupar nenhuma magistratura, nenhum cargo público, nem o seu lugar no Senado – tudo isso tinha sido substituído pela adoração aos deuses e à família real[36] e ultrapassado no seu alcance real pela auctoritas inexcedível de Augusto. Não era a ele - e não ao Senado - que os povos estrangeiros, de paragens distantes e exóticas, enviavam as suas embaixadas[37], e, por Augusto, cuja auctoritas procuravam a amizade do povo romano? Não tinha ele já superado em muito os limites dos poderes transitórios da República? Seria ele ainda um homem deste mundo? Somos aqui tentados a dizer de Augusto aquilo que Toynbee disse de Licurgo: não era um homem, mas apenas um deus (e, de facto, foi adorado como tal no Oriente depois de 29 a.C[38]).
É esta aura de santidade, de semi-divindade, de auctoritas supra-humana, que está presente na estátua de Augusto da Prima Porta. O gesto de adlocutio da mão direita que não se dirige a nenhum auditório particular, que não está limitada por nenhuma ocasião específica, é o gesto do poder que torna possível o mesmo gesto[39], que se dirige tanto aos que passam como aos homens por vir. Na couraça, o rei dos Partos submete-se a Roma, entrega as insígnias e suplica a amizade do Povo Romano[40]; um pouco mais abaixo, a deusa Terra segura a cornucópia. Paz, amizade e prosperidade são as mensagens fundamentais do regime de Augusto, que ilustravam também os templos de Marte Vingador, da Concórdia[41], e a Ara Pacis[42]. A paz tinha-se conseguido pelo domínio da guerra e pelo restauro da honra e da virtus que dela eram indissociáveis[43], e, para isso, foi também necessário o restauro dos bons costumes[44], mesmo com intromissão na vida privada da aristocracia.[45] Há, claro, alguns exageros: Augusto não derrotou militarmente os Partos; as suas leis que regulavam o casamento e a moral conheceram um êxito modesto[46] e abundância sofria contratempos de quando em quando, mas nesses momentos de crise o Príncipe transformava-se, uma e outra vez, no messias salvador do povo faminto e desesperado, que lhe suplicava que se fizesse dictador[47]. Ele deu-lhes o pão, o circo[48], a terra[49] e os sestércios[50],  mas nunca lhes ofereceu motivos, ao povo e ao Senado, para o acusarem de ser inimigo da República, mesmo que a República fosse agora a sua[51] República.
Essa crise, prontamente resolvida por Augusto, ocorreu em 22. a. C, num momento em que o Príncipe estava na mesma posição em que tinha iniciado o ano de 44 a.C.: um priuatus sem cargo, tendo na retaguarda um enorme exército. Do ponto de vista meramente formal e legal é uma afirmação correcta. Mas a República não funcionava exclusivamente por vias formais ou estrictamente legais. Em 44.a.C, Augusto era um jovem com muito dinheiro, algum poder, mas nenhuma auctoritas. Suficientemente rico para levantar um exército a expensas próprias[52], suficientemente jovem e desrespeitado para ocupar o lugar mais modesto no triuvirato[53]. Porém, soube sempre como explorar, manobrar e manipular os limites tradicionalmente flexíveis da constituição da República[54] para se elevar acima de todos em dignidade auctoritas. Em 33 a.C, Agrippa, o fiel amigo do Príncipe e o único homem nomeado como seu par nas Res Gestae[55], faz-se eleger (a conselho de Augusto) Edil, um cargo pouco digno para para um homem como Agrippa. Contudo, o que à primeira vista parecia uma diminuição no estatuto político, foi, na realidade, um golpe de teatro de uma enorme argúcia política, uma oportunidade para darem um largo uso à sua generosidade e conquistar as massas da urbe[56]. Na guerra fratricida contra Marco António, fez-se representar como o protector de Roma[57], reconstruiu o templo de Júpiter Ferétrio associando o seu nome ao do herói fundador de Roma[58] e, após a vitória no Áccio, nunca o inimigo foi representado de maneira explícita ou humilhante, mas inaugurou um novo estilo onde pontificavam os ideias de grandeza e de Vitória[59], de bravura e piedade, de clemência e de justiça, unindo num só o espírito do povo romano, a República e a figura do Príncipe[60]. O poder esteve sempre na posse de Augusto, não pelo exercício de cargos, mas pelas inúmeras honras que o Senado lhe outorgava, e pelas quais o Imperador pôde dizer que ficou acima de todos em autoridade, mas não teve mais nenhum poder do que os outros[61]. Chamamos de República Restaurada, cujos mecanismos políticos estavam de novo a funcionar em ordem, a um estado de coisas em que, na melhor das hipóteses, um senador podia imaginar viver numa República[62]. O decisivo para Augusto era manter-se dentro da tradição e para tudo encontrar um precedente, fosse ele mítico ou histórico – isso era o quanto bastava para que a sua imagem de Salvador da República não fosse nunca questionada.
Não foi só Octaviano que de jovem ambicioso se transformou numa figura messiânica. Também Roma tinha mudado. Octaviano encontrou-a de tijolos e vestiu-a de mármore, encontrou-a capital da República e fê-la capital de Augusto, uma cidade imperial, pertença do Imperador e da família real, o lugar para a exibição dos feitos da gens Iulia[63]. Mas algo que nunca era exibido era o nome de Augusto[64] - não era necessário. Ele tinha feito um grande esforço já para fazer os romanos esquecerem uma parte do passado. Agora, a mera contemplação dos monumentos e templos que celebravam a glória de Roma, bastaria para a memória e  asantidade do seu nome. Pois ele tinha salvo os romanos da guerra civil e restaurado as possibilidades da vida quotidiana; como bom Pai da Pátria, como um Redentor, tinha devolvido a esperança aos cidadãos de que, mesmo sem a sua presença, sem ele mesmo exercer um cargo público, a República poderia continuar como sempre tinha continuado. A cidade, os monumentos e a literatura falariam por ele e pelos seus feitos.

2 comentários:

  1. Bingooooo
    ;)
    amanhã leio com olhos de ler que hoje já estou mais para lá do que para cá

    ;)

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