segunda-feira, 26 de junho de 2017

Manias

Não é para estar com merdas, mas isto de reputarem como grande obra um livrito onde um Imperador romano fala como um filósofo francês de 1950 no divã do psicanalista (ou seja, uma porqueira urbana) faz-me um bocado de confusão.

Mas de Literatura percebo pouco. Agora tenho de ir ali e já venho.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

The hands of love


Robert John Bardo is an American from Tucson, Arizona. In 1986 he became obsessed with actress Rebecca Schaeffer after sending her a letter. In 1989, Bardo witnessed her in a love scene in the 1989 film Scenes from the Class Struggle in Beverly Hills; he later stated "Even though nothing really happened in the movie too dirty that involved her, it still bothered me, and it just ruined this innocent image of her." He paid a private investigator to find out her home address and began to stalk her. On 18 July 1989 he travelled to Shaeffer's home and murdered her.

Dr. Park Elliott Dietz, a psychiatrist who had worked on the case of John Hinckley, Jr. following his assassination attempt on President Ronald Reagan, was assigned to work with Bardo. He told that court that Bardo claimed "Exit" had influenced his actions. According to the Associated Press, when the song was played in court "Bardo, who had sat motionless through the trial, sprang to life... He grinned, bobbed to the music, pounded his knee like a drum and mouthed the lyrics." Bardo was convicted of first-degree murder.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A excitação



My first orgasm, within the deep wound on her thigh, jolted my semen along this channel, irrigating its corrugated ditch. Holding the semen in her hand, she wiped it against the silver controls of the clutch treadle. My mouth was fastened on the scar below her left breast, exploring its sickle-shaped trough. Gabrielle turned in her seat, revolving her body around me, so that I could explore the wounds of her right hip. For the first time I felt no trace of pity for this crippled woman, but celebrated with her the excitements of these abstract vents let into her body by sections of her own automobile. During the next few days my orgasms took place within the scars below her breast and within her left armpit, in the wounds on her neck and shoulder, in these sexual apertures formed by fragmenting windshield louvres and dashboard dials, in a high-speed impact, marrying through my own penis the car in which I had crashed and the car in which Gabrielle had met her near-death. I dreamed of other accidents that might enlarge this repertory of orifices, relating them to more elements of the automobile's engineering, to the ever-more complex technologies of the future. What wounds would create the sexual possibilities of the invisible technologies of thermonuclear reaction chambers, white-tiled control rooms, the mysterious scenarios of computer circuitry? As I embraced Gabrielle I visualized, as Vaughan had taught me, the accidents that might involve the famous and beautiful, the wounds upon which erotic fantasies might be erected, the extraordinary sexual acts celebrating the possibilities of unimagined technologies. In these fantasies I was able at last to visualize those deaths and injuries I had always feared. I visualized my wife injured in a high-impact collision, her mouth and face destroyed, and a new and exciting orifice opened in her perineum by the splintering steering column, neither vagina nor rectum, an orifice we could dress with all our deepest affections. I visualized the injuries of film actresses and television personalities, whose bodies would flower into dozens of auxiliary orifices, points of sexual conjunction with their audiences formed by the swerving technology of the automobile. I visualized the body of my own mother, at various stages of her life, injured in a succession of accidents, fitted with orifices of ever greater abstraction and ingenuity, so that my incest with her might become more and more cerebral, allowing me at last to come to terms with her embraces and postures. I visualized the fantasies of contented paedophiliacs, hiring the deformed bodies of children injured in crashes, assuaging and irrigating their wounds with their own scarred genital organs, of elderly pederasts easing their tongues into the simulated anuses of colostomized juveniles.

James Ballard, Crash

domingo, 18 de junho de 2017

Mais um bocadinho, e já se cansam de fingir que os mortos os deixam muito tristes.

Só mais um bocadinho. 

sábado, 17 de junho de 2017

Ir à missa



De tudo o que permaneceu e de todas as mudanças políticas, sociais e económicas que moldaram e transformaram o Império, a emergência do Cristianismo como religião universal constitui uma das mais significativas alterações na paisagem do Império. Uma religião que não só desafiava a natureza e os limites do poder imperial[1], como o próprio conceito tradicional de romano se foi diluindo, em particular no Oriente, na nova concepção de homem cristão[2]. Lenta e progressivamente, a Oriente e a Ocidente, os arquétipos da cultura clássica foram sendo substituídos: a leitura de Virgílio [3]e de Horácio deu lugar à da Bíblia[4], a historiografia à hagiografia, à liturgia, ao sermão[5], e os valores da política passam a decorrer da doutrina teológica[6]. Em finais do séc. IV, na Numídia, um movimento de trabalhadores sazonais, de escravos e colonos, surge, não tanto como movimento social, mas como uma corrente religiosa[7]com origem no cisma donatista, que persegue com mais entusiasmo os Católicos do que os ricos que os exploravam[8]. Em 412, Honório, depois dum conlatio entre Católicos e Donatistas onde os argumentos resvalam para o insulto[9], dá início à repressão do donatismo. No plano das ideias a velha identidade romana começa a ser questionada. Santo Agostinho, um neoplatonista[10], redige A Cidade de Deus nos princípios do séc. V, onde se pode ler que, segundo a definição de  Cipião ou de Cícero, de acordo com os seus conceitos de Justiça, de Direito[11] e de Estado, a República nunca existiu[12]. Por meio do Cristianismo, aquilo que tinha servido para inspirar Cícero, era agora usado para atacar as fundações do espírito romano. Sociedade, Imperador, Cultura – tudo é tocado pelo cristianismo.
Contudo, isso não significa que as estruturas políticas e mentais do Império viessem a ser absorvidas ou totalmente eliminadas quer pela Igreja[13], quer pelos hereges bárbaros. Pelo contrário, todos os reinos bárbaros – assim como a Igreja - que sucederam ao Império procuraram imitá-lo nos seus traços fundamentais[14]. Os Vândalos combatiam, administravam, cobravam impostos e perseguiam os hereges no mais fiel estilo romano[15]; as suas elites enriqueciam e gastavam como os romanos, em casas de luxo e em igrejas[16]. Os Francos diziam-se descendentes dos heróis troianos[17], respeitavam as tradições romanas[18] e os seus líderes desejavam para si uma posição dominante à imagem daquela da aristocracia romana[19]. O reino dos Godos era uma imitação da Romania[20]. «Admiramos mais os títulos conferidos pelos imperadores que os nossos», escreve um rei bárbaro a um Imperador[21]. Odoacro, um Scírio que serviu no exército romano, podia ser uma personagem do Império[22].  Só que os bárbaros eram, de facto, uma outra gente. Em África, as elites dos Vândalos governavam a província como uma propriedade de grandes chefes militares [23], substituindo e expropriando a classe senatorial das suas funções e terras. A carne passa a fazer parte da dieta da alta aristocracia dos Francos como sinal distintivo de classe, as suas vestes procuram imitar as dos generais romanos, não as togas dos seus senadores[24]. Gente de índole marcadamente bélica, os bárbaros exploram os povos dominados[25], destruindo vidas humanas, monumentos e equipamento económico[26]. O fim da infra-estrutura do Império Tardio no Mediterrâneo e o controlo Vândalo dos canais de abastecimento de cereais do território romano, conduziu ao desaparecimento da aristocracia (e duma grande parte da população) em Roma[27], à quebra do poder central, a uma crescente provincialização[28] do Império, à regressão da técnica, do gosto, da administração e da majestade de governo[29]. Também o mundo, agora, era outro.
Ainda assim, as linhas de continuidade entre os modelos de autoridade do Império e os dos reinos bárbaros[30] são evidentes. Apesar de todos os paradoxos, fraquezas e contradições internas com laivos esquizofrenia, de todas as pressões e ameaças do exterior,  a verdade é que o Império durou. Roma durou.
Os historiadores sabem que o Império Romano sobreviveu adaptando-se às circunstâncias e no séc. III, dois homens terão um papel predominante nesse processo constante de adaptação do Império a circunstâncias que nem sempre pôde controlar: Septimio Severo e Diocleciano. O Império do tempo de Severo é, no essencial, o Império de Augusto[31], onde o aparentemente insolucionável problema da Sucessão se eternizava. A crise do séc. III é uma crise do Imperador e do seu exército[32], exposta e acentuada pela pressão bárbara nas fronteiras do Império. Severo tenta uma monarquia do tipo dinástico, e ao mesmo tempo controlar e quebrar o predomínio da guarda pretoriana[33]. O homem que atrasou a catástrofe em meio século[34]era, sobretudo, um homem pragmático. «Enriqueçam a soldadesca e maribem-se para o resto», consta[35] ter sido um dos últimos conselhos dados por si aos seus filhos. Foi, a seguir a Augusto, o maior reformador do exército romano[36], mas, ao contrário de Augusto, foi um dos maiores opositores ao Senado[37], sendo já este uma instituição quase meramente decorativa e impotente[38], na expressão de Alföldy, «um avô respeitável, mas paralítico»[39]. Diocleciano haveria de reduzir os senadores a nada no que toca à participação na vida da administração e do governo do Império[40] -  o Senado, no séc. III, não passa de uma sombra[41] . O povo romano pouco mais era, desde o século I[42], do que um fantasma entretido em Roma com jogos e corridas, e alimentado por trigo gratuito[43] e carne de porco. Também aqui, na capital do Império, as coisas iriam mudar. Se no tempo de Severo era ainda comum o Imperador passar largas temporadas na Itália Central e em Roma[44], Diocleciano visita a cidade somente uma vez, em 303, para celebrar os seus vinte anos de poder[45]. O mundo romano, desde o século III,  afastou-se de si próprio[46]. A sequência de invasões e usurpações tornou a presença do Imperador em Roma quase impossível[47] e durante o período da Tetrarquia um número considerável de cidades foi considerado de importância estratégica e adornado com edifícios dignos de uma residência do Imperador[48]. Por fim, Constantinopla é fundada, uma «Nova Roma» no Oriente, que, até à sua queda, irá guardar para si o papel de nova capital Imperial[49], e no século IV encontramos o Império governado a partir de uma nova capital, por um Imperador mais cristão do que romano; à morte de Constantino, o Império tinha um novo rosto[50], na organização política, na constituição e disposição do exército, na fé e nos costumes do povo. As invasões dos Bárbaros e o Cristianismo colaboraram na composição duma nova identidade romana. Mas, em si, isso também não constitui uma grande novidade. A sobrevivência do Império não se deveu unicamente à habilidade dos romanos em modificar o seu complexo político. A criação de novas ordens ou magistraturas foi decisiva para durabilidade do Império, como resposta às constantes ameaças que se movimentavam ao longo do Danúbio, do Reno e do Eufrates. Mas, a par de novas contingências políticas e militares, a pouco e pouco também o espírito, digamos assim, do Império foi conhecendo novas faces. Augusto funda o Principado sem deixar de observar, perante o Senado e a aristocracia romana, os sinais de reverência e de respeito pelos representantes tradicionais do poder da República[51], mas era claro, e aceite, que o poder estava agora nas mãos de um só homem[52]. Os romanos resistiram por muito tempo a uma monarquia dinástica do estilo helenístico, resistiram a Nero, a Calígula, a Domiciano, até, de algum modo, à dinastia dos Severos; mas, após a morte de Constantino, os seu três filhos dividiram entre si o Império. Teodósio Augusto,o último imperador a dominar o Ocidente e o Oriente, luta mais com a oração do que com as armas, após a vitória sobre um poderosíssimo exército, derruba as estátuas de Júpiter e distribui os seus raios de oiro pelos correios[53]. Naturalmente, Deus tira a vida àqueles que procuram a felicidade do poder e não a vida eterna[54]. O Cristianismo, a Igreja, não se limitará a oferecer uma nova visão sobre o poder terreno e as esferas celestes e um novo esboço de uma identidade romana; fará das estruturas do Império um instrumento para se afirmar[55], e os bispos e os monges juntam às suas funções religiosas funções políticas[56] e será a Igreja a única alternativa a uma carreira militar após a queda do Império no Ocidente[57] o principal agente de transmissão da cultura romana ao Ocidente Medieval[58]. Àqueles que falam, talvez exageradamente, da «morte do Império», do «homicídio do Império» ou, recentemente, do «suicídio do Império», podemos responder que assim como a República cedeu o lugar ao Principado, e este, com o tempo, se foi transformando numa monarquia, também o carácter romano se foi alternando, e onde encontrávamos Cícero, Suetónio, ou Tácito, vemos agora Agostinho, Ambrósio ou Gregório Magno. 

Bem vistas as coisas, o Império não foi assassinado, nem se suicidou, nem sequer morreu – foi só à missa.

            E esse foi o triunfo final do helenismo sobre Roma.  

Ter sido, ter estado

I understand the large hearts of heroes,
The courage of present times and all times,
How the skipper saw the crowded and rudderless wreck of the steam ship and Death chasing it up down the storm,
How he knuckled tight and gave not back an inch, and was faithful of days and faithful of nights,
And chalk'd in large letters on board, Be of good cheer, we will not desert you;
How he follow'd with them and tack'd with them three days and would not give it up,
How he saved the drifting company at last,
How the lank loose-gown'd women look'd when boated from the side of their prepared graves,
How the silent old-faced infants and the lifted sick, and the sharp-lipp'd unshaved men;
All this I swallow, it tastes good, I like it well, it becomes mine,
I am the man, I suffer'd, I was there.

Walt Whitman, Song of Myself, 33

É como estar em casa


terça-feira, 6 de junho de 2017

Um abraço, António


Só hoje é que soube. Que vergonha. Então um gajo destes, pá, que com a massa toda que sacou, ganhou, digo, em vez de rebentá-la em super-putas de luxo, assume um namoro com a Guta Moura Guedes (foda-se... foda-se... foda-se...), era lá capaz de se meter em corrupções e não sei quê. As coisas que esta malta inventa. (Mas, pelo sim, pelo não, deixa-me cá dizer que isto foi tudo por decisão colegial e tal... e deixa-me cá também, já agora, nomear um banco suíço conhecido por operações um pouco, enfim, poeirentas como entidade imparcial... a gente não nasceu ontem, não é assim?...)

Um abraço, pá. Bom, foi só para eu matar saudades. Já agora, um abraço também ao Pinho, esse grande professor e um verdadeiro amigo dos animais. Pelo menos, ouvi dizer, nunca vi, anda sempre por Times Square a passear a cadela. Ou as cadelas. E são das grandes. Dizem. 

«What a play!»