sábado, 17 de junho de 2017

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De tudo o que permaneceu e de todas as mudanças políticas, sociais e económicas que moldaram e transformaram o Império, a emergência do Cristianismo como religião universal constitui uma das mais significativas alterações na paisagem do Império. Uma religião que não só desafiava a natureza e os limites do poder imperial[1], como o próprio conceito tradicional de romano se foi diluindo, em particular no Oriente, na nova concepção de homem cristão[2]. Lenta e progressivamente, a Oriente e a Ocidente, os arquétipos da cultura clássica foram sendo substituídos: a leitura de Virgílio [3]e de Horácio deu lugar à da Bíblia[4], a historiografia à hagiografia, à liturgia, ao sermão[5], e os valores da política passam a decorrer da doutrina teológica[6]. Em finais do séc. IV, na Numídia, um movimento de trabalhadores sazonais, de escravos e colonos, surge, não tanto como movimento social, mas como uma corrente religiosa[7]com origem no cisma donatista, que persegue com mais entusiasmo os Católicos do que os ricos que os exploravam[8]. Em 412, Honório, depois dum conlatio entre Católicos e Donatistas onde os argumentos resvalam para o insulto[9], dá início à repressão do donatismo. No plano das ideias a velha identidade romana começa a ser questionada. Santo Agostinho, um neoplatonista[10], redige A Cidade de Deus nos princípios do séc. V, onde se pode ler que, segundo a definição de  Cipião ou de Cícero, de acordo com os seus conceitos de Justiça, de Direito[11] e de Estado, a República nunca existiu[12]. Por meio do Cristianismo, aquilo que tinha servido para inspirar Cícero, era agora usado para atacar as fundações do espírito romano. Sociedade, Imperador, Cultura – tudo é tocado pelo cristianismo.
Contudo, isso não significa que as estruturas políticas e mentais do Império viessem a ser absorvidas ou totalmente eliminadas quer pela Igreja[13], quer pelos hereges bárbaros. Pelo contrário, todos os reinos bárbaros – assim como a Igreja - que sucederam ao Império procuraram imitá-lo nos seus traços fundamentais[14]. Os Vândalos combatiam, administravam, cobravam impostos e perseguiam os hereges no mais fiel estilo romano[15]; as suas elites enriqueciam e gastavam como os romanos, em casas de luxo e em igrejas[16]. Os Francos diziam-se descendentes dos heróis troianos[17], respeitavam as tradições romanas[18] e os seus líderes desejavam para si uma posição dominante à imagem daquela da aristocracia romana[19]. O reino dos Godos era uma imitação da Romania[20]. «Admiramos mais os títulos conferidos pelos imperadores que os nossos», escreve um rei bárbaro a um Imperador[21]. Odoacro, um Scírio que serviu no exército romano, podia ser uma personagem do Império[22].  Só que os bárbaros eram, de facto, uma outra gente. Em África, as elites dos Vândalos governavam a província como uma propriedade de grandes chefes militares [23], substituindo e expropriando a classe senatorial das suas funções e terras. A carne passa a fazer parte da dieta da alta aristocracia dos Francos como sinal distintivo de classe, as suas vestes procuram imitar as dos generais romanos, não as togas dos seus senadores[24]. Gente de índole marcadamente bélica, os bárbaros exploram os povos dominados[25], destruindo vidas humanas, monumentos e equipamento económico[26]. O fim da infra-estrutura do Império Tardio no Mediterrâneo e o controlo Vândalo dos canais de abastecimento de cereais do território romano, conduziu ao desaparecimento da aristocracia (e duma grande parte da população) em Roma[27], à quebra do poder central, a uma crescente provincialização[28] do Império, à regressão da técnica, do gosto, da administração e da majestade de governo[29]. Também o mundo, agora, era outro.
Ainda assim, as linhas de continuidade entre os modelos de autoridade do Império e os dos reinos bárbaros[30] são evidentes. Apesar de todos os paradoxos, fraquezas e contradições internas com laivos esquizofrenia, de todas as pressões e ameaças do exterior,  a verdade é que o Império durou. Roma durou.
Os historiadores sabem que o Império Romano sobreviveu adaptando-se às circunstâncias e no séc. III, dois homens terão um papel predominante nesse processo constante de adaptação do Império a circunstâncias que nem sempre pôde controlar: Septimio Severo e Diocleciano. O Império do tempo de Severo é, no essencial, o Império de Augusto[31], onde o aparentemente insolucionável problema da Sucessão se eternizava. A crise do séc. III é uma crise do Imperador e do seu exército[32], exposta e acentuada pela pressão bárbara nas fronteiras do Império. Severo tenta uma monarquia do tipo dinástico, e ao mesmo tempo controlar e quebrar o predomínio da guarda pretoriana[33]. O homem que atrasou a catástrofe em meio século[34]era, sobretudo, um homem pragmático. «Enriqueçam a soldadesca e maribem-se para o resto», consta[35] ter sido um dos últimos conselhos dados por si aos seus filhos. Foi, a seguir a Augusto, o maior reformador do exército romano[36], mas, ao contrário de Augusto, foi um dos maiores opositores ao Senado[37], sendo já este uma instituição quase meramente decorativa e impotente[38], na expressão de Alföldy, «um avô respeitável, mas paralítico»[39]. Diocleciano haveria de reduzir os senadores a nada no que toca à participação na vida da administração e do governo do Império[40] -  o Senado, no séc. III, não passa de uma sombra[41] . O povo romano pouco mais era, desde o século I[42], do que um fantasma entretido em Roma com jogos e corridas, e alimentado por trigo gratuito[43] e carne de porco. Também aqui, na capital do Império, as coisas iriam mudar. Se no tempo de Severo era ainda comum o Imperador passar largas temporadas na Itália Central e em Roma[44], Diocleciano visita a cidade somente uma vez, em 303, para celebrar os seus vinte anos de poder[45]. O mundo romano, desde o século III,  afastou-se de si próprio[46]. A sequência de invasões e usurpações tornou a presença do Imperador em Roma quase impossível[47] e durante o período da Tetrarquia um número considerável de cidades foi considerado de importância estratégica e adornado com edifícios dignos de uma residência do Imperador[48]. Por fim, Constantinopla é fundada, uma «Nova Roma» no Oriente, que, até à sua queda, irá guardar para si o papel de nova capital Imperial[49], e no século IV encontramos o Império governado a partir de uma nova capital, por um Imperador mais cristão do que romano; à morte de Constantino, o Império tinha um novo rosto[50], na organização política, na constituição e disposição do exército, na fé e nos costumes do povo. As invasões dos Bárbaros e o Cristianismo colaboraram na composição duma nova identidade romana. Mas, em si, isso também não constitui uma grande novidade. A sobrevivência do Império não se deveu unicamente à habilidade dos romanos em modificar o seu complexo político. A criação de novas ordens ou magistraturas foi decisiva para durabilidade do Império, como resposta às constantes ameaças que se movimentavam ao longo do Danúbio, do Reno e do Eufrates. Mas, a par de novas contingências políticas e militares, a pouco e pouco também o espírito, digamos assim, do Império foi conhecendo novas faces. Augusto funda o Principado sem deixar de observar, perante o Senado e a aristocracia romana, os sinais de reverência e de respeito pelos representantes tradicionais do poder da República[51], mas era claro, e aceite, que o poder estava agora nas mãos de um só homem[52]. Os romanos resistiram por muito tempo a uma monarquia dinástica do estilo helenístico, resistiram a Nero, a Calígula, a Domiciano, até, de algum modo, à dinastia dos Severos; mas, após a morte de Constantino, os seu três filhos dividiram entre si o Império. Teodósio Augusto,o último imperador a dominar o Ocidente e o Oriente, luta mais com a oração do que com as armas, após a vitória sobre um poderosíssimo exército, derruba as estátuas de Júpiter e distribui os seus raios de oiro pelos correios[53]. Naturalmente, Deus tira a vida àqueles que procuram a felicidade do poder e não a vida eterna[54]. O Cristianismo, a Igreja, não se limitará a oferecer uma nova visão sobre o poder terreno e as esferas celestes e um novo esboço de uma identidade romana; fará das estruturas do Império um instrumento para se afirmar[55], e os bispos e os monges juntam às suas funções religiosas funções políticas[56] e será a Igreja a única alternativa a uma carreira militar após a queda do Império no Ocidente[57] o principal agente de transmissão da cultura romana ao Ocidente Medieval[58]. Àqueles que falam, talvez exageradamente, da «morte do Império», do «homicídio do Império» ou, recentemente, do «suicídio do Império», podemos responder que assim como a República cedeu o lugar ao Principado, e este, com o tempo, se foi transformando numa monarquia, também o carácter romano se foi alternando, e onde encontrávamos Cícero, Suetónio, ou Tácito, vemos agora Agostinho, Ambrósio ou Gregório Magno. 

Bem vistas as coisas, o Império não foi assassinado, nem se suicidou, nem sequer morreu – foi só à missa.

            E esse foi o triunfo final do helenismo sobre Roma.  

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