segunda-feira, 17 de julho de 2017

Coisas engraçadas

Leio os meus diários passados meia dúzia de anos e pergunto-me como foi possível perder tempo com tais parvoíces, com as coisas de que tomei nota... tempos em que vivia com uma advogada... algo que me estaria vedado, isso de viver com alguém... é complicado estar agora aqui a descrever a situação... mas a verdade é que nessa altura já uma certa insensibilidade me dominava, desde muito cedo, tão notada e apreciada nos labirintos que frequentava antes de a encontrar... fizeram-me chegar um livrito, há uns meses, em que ela é autora... a publicação da tese de Mestrado, meandros do Direito, direitos das sociedades, enfim, não tenciono ler. Porém, peguei hoje no livro, apenas para lhe ouvir o nome, sorrir um pouco ao imaginar a criatura a redigir o texto, num português péssimo (na verdade, eu li... eu bem lhe dizia que ela devia aprender Latim, como era costume, o português dá logo um salto, logo!... e é fácil, aquilo depois de se aprender as declinações e as formas verbais é sempre a andar, não é como no grego do antigamente, foda-se, um gajo primeiro que perceba o que um Píndaro ou um Ésquilo estão para ali a dizer, está bem, está, nem os gregos percebem, e é por isso que é tão engraçado,  é mais ou menos como a Topologia moderna, uma coisa que dá pica... e cagança... lembro-me de uma ocasião conversarmos acerca da Antígona, mas não me disse mais do que aquelas imbecilidades que se aprendem nas faculdades de Direito... era uma pena tamanho desperdício, ela era verdadeiramente brilhante, mas estes textos ocupam uma outra dimensão,  daí terem resistido 2500 anos, não é por acaso, eu bem vos digo, em vez de rebentarem dinheiro em psicoveterinários e outros xamãs desses, leiam os textos fundadores, devagar, com calma, com cuidado, está lá tudo, como se diz, e está, esqueçam lá as grandes listas de romances, de tomos filosóficos, científicos blá, blá, blá, não se encontra nada de novo desde Aristóteles, até deficientes como paneleiros e proto-socialistas já lá havia, veja-se bem o avanço e o progresso daquela malta), não a censuro, são coisas científicas, claro, sim, obviamente, ciência, pois. Tinha-lhe dito que ela é que era a intelectual, a inteligência, o espírito mais elevado. É necessário, obviamente, que tais espíritos acabem por odiar naturezas como a minha, extraordinariamente indiferentes e até maldosas - no plural, não estou sozinho, um dia talvez falemos disso com mais cuidado, é o que digo sempre, mas há que ter certezas, certezas sólidas de que depois disso não me demorarei muito por cá, é isso que é necessário. Se esse ódio não lhes brota de forma espontânea, a única coisa que resta é criá-lo nós mesmos, se ainda nos restar um pouco de dignidade. Não se imagina as coisas que me ensinaram. Bom. São coisas que acontecem, nada de especial. O único lamento será o de ela nunca ter saído daquele meio sabujo em que se movimentava. Enfim, mais vinte ou trinta anos e ninguém se lembrará disso, quando estiverem todos mortos e no lugar deles estarão outros, iguaizinhos, sem tirar nem pôr, a manobrar, a negociar, a apodrecer a mentir ainda mais e mais e mais, sempre satisfeitos, orgulhosos, mesquinhos. Não deixará nada. É pena. Porém, a recordação da sua bondade, da sua graça natural, essa é profunda. Se a tivesse conhecido um pouco mais cedo, teria sido diferente. Às vezes, é demasiado tarde para triunfar sobre as tentações do abismo, para calar aquele apelo obscuro do perigo, da morte, da perda. Este mundo é uma indignidade, só isso, não é o tempo de justificar. Nunca o será, bem vistas as coisas. Não vale a pena. É preciso ter visto certas coisas, lá longe, para se compreender, tê-los visto em acção, para se perceber com toda a clareza de que se alimentam estes parasitas, em que caudais irresistíveis de merda vão buscar forças, razões, moralidade. De outro modo não é possível compreender.

Enquanto isso, tomemos refúgio nas coisas belas. São elas que salvam o mundo, como dizia aquele grande psicólogo russo.

E ela é mesmo muito inteligente. Sem ironia. Comprova-se que eu nunca me engano. Ensinaram-me bem, muito bem. Eu é que sempre me portei muito mal. Verdadeira ignomínia. O melhor é nem falar disso. Há vergonhas e infâmias que hei-de transportar comigo até ao e para as quais não há perdão nem redenção possível. Tentei diante do espelho, e do altar, todas as desculpas possíveis, as circunstâncias, a doença, a necessidade, a impotência face a acontecimentos que me ultrapassavam, as obrigações, tudo que justificasse o meu comportamento para com alguém que me dedicava tanto amor, que tinha uma esperança tão grande. O sofrimento por que passou não tem perdão possível.

Tem um livro e isso deixa-me satisfeito. Deus esteja com ela. E convosco. Agora e sempre.

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