quinta-feira, 13 de julho de 2017

Da escumalha

Em qualquer período de transição emerge esta escumalha, existente em qualquer sociedade, que não só não tem qualquer objectivo como também não dá qualquer sinal de pensamento, exprimindo apenas, com toda a pujança, a inquietação e a impaciência. Entretanto, esta escumalha, sem o saber, quase sempre cai sob as ordens do pequeno grupo dos «homens de vanguarda» que age com um fim determinado e manipula todo esse lixo onde e como lhe aprouver, quando não se dá o caso de o próprio grupo «de vanguarda» ser composto por idiotas absolutos, o que, de resto, também acontece às vezes. Entre nós, agora que já passou todo, diz-se que Pior Stepánovitch foi comandado pela Internacional, que Iúlia Mikháilovna foi comandada por Pior Stepánovitch, e que esta, por sua vezes, de acordo com as ordens dele, regulava todo o género de escumalha. As mais sérias da nossas cabeças admiram-se agora consigo mesmas: como foi que puderam dar semelhante patada naqueles dias? É que não sei - e ninguém o sabe, acho eu - em que consistiam os nossos tempos de revolta e que transição queríamos ter, a não ser que o saibam alguns visitantes de fora. Entretanto, a gentalha sem préstimo obteve de chofre a superioridade, começou a criticar em voz alta tudo o que era sagrada, quando dantes não se atrevia sequer a abrir a boca; ao passo que as pessoas importantes, que até então mantinham tranquilamente a preponderância, começaram a dar ouvidos à gentalha e a não ripostar; havia mesmo entre elas quem os apoiasse com risinhos.

Doistoiévski, Demónios

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